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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ana e Marco. (Parte 21) Final! (Season Finale)


Satisfeita com a minha entrada, afinal, eu não era tão exímia bailarina assim, olhei para a platéia procurando o olhar de aprovação de Renato. Foi então que fiquei completamente imóvel. Era como se eu sentisse frio e calor ao mesmo tempo, como se meu corpo estivesse formigando, o calafrio começou se espalhar pela minha espinha e pela minha barriga. Não podia acreditar em quem eu estava vendo. Gerrard, o bailarino que interpretava o par romântico de minha personagem, se aproximou para fazermos o levantamento, mas eu permaneci imóvel, encarando Marco, que sorria pra mim da platéia.
"Ana, o que foi?" Perguntou Renato, mas eu não consegui responder. Era como se eu estivesse em choque.
"Ana?" Ele repetiu com força, não gritando, só em um tom firme e bem audível.
"Desculpe, acho que fiquei um pouco tonta." Respondi atordoada.
"Eu te amo!" Gritou, Marco. Ele correu até uma das extremidades do palco e subiu.
Todos ficaram espantados, sem saber muito bem o que estava acontecendo.
A medida que Marco vinha a passos apressados em minha direção, meu coração pulsava com tanta força, que eu pensei que fosse perfurar meu peito.
"Marco, o que..."
"Eu vim só pra te dizer isso. Eu amo você." Ele me interrompeu. Eu sacudi a cabeça, tentando assimilar tudo aquilo, então ele continuou: "Eu sei que parece loucura, mas eu iria enlouquecer se deixasse você sair tão fácil assim da minha vida, só porque nunca tive coragem de dizer isso até agora."
"Marco..." Eu não conseguia dizer nada. Olhei para baixo desviando o olhar do dele, coloquei as mãos na cintura, respirei fundo. Senti as lágrimas transbordarem em meus olhos, em seguida escorrendo pelo meu rosto.
Marco levantou meu rosto para cruzar nossos olhares novamente, enquanto enxugava minhas lágrimas com suas mãos. Via Renato embasbacado, assistindo tudo ali debaixo, bem no pé do palco a nossa frente, com um braço cruzado, servindo de apoio para o outro. Olhos arregalados, como quem quer descobrir aonde isso vai dar.
"Ana, não quero que você pense que eu vim aqui porque quero que você seja minha namorada. Eu pensei sobre todo este tempo em que nos conhecemos e cheguei a uma conclusão."
Marco pegou minha mão direita e se ajoelhou. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo, as lágrimas escorriam mais depressa, minha respiração cada vez mais ofegante. Vi os olhos dele também encherem de lágrimas. E ele disse:
"Eu não consigo imaginar Marco sem Ana. Eu quero que você seja minha melhor amiga para o resto da minha vida e, não é só isso, quero que você seja o meu amor para o resto da minha vida também. Se você me aceitar eu não te prometo um amor eterno, porque eu não sou eterno, mas prometo te amar com todo e melhor amor que houver em mim enquanto vivermos." Marco tirou do bolso de trás da calça aquele par de alianças que escolhemos juntos para ele e Rita.
Colocou em meu dedo anelar com cuidado, beijou minha mão, olhou em meus olhos e disse:
"Agora é sua vez." Sorriu, entregando a outra aliança pra mim e estendo sua mão direita.
Então eu olhei a aliança e vi que o meu nome estava gravado nela. Ele realmente havia se preparado. Coloquei em seu dedo e admirei aquela delicada circunferência, sem início, meio ou fim, como o amor deve ser. O melhor era saber que tinha o meu nome.
Olhei de volta para Marco, em um mesclado de riso e pranto.
Ele envolveu meu rosto em suas mãos e, finalmente, pude sentir o calor dos lábios de Marco se movendo gentilmente contra os meus, o seu hálito quente, sua respiração se mesclando a minha, nossos braços entrelaçando nossos corpos, o cheiro dele, o gosto, tudo era tão perfeito, tão novo, tão natural, tão ideal e podia sentir seu coração tão acelerado quanto o meu enquanto ele parava pra me olhar, com nossos rostos colados e dizer:
"Eu te amo!"
"Eu te amo tanto." Era tudo o que eu podia e sabia dizer, como se em toda minha vida, até ali, eu só estivesse esperando por aquilo.
Então eu comecei ouvir aplausos e assobios. Claro, havia perdido completamente a noção de que estávamos em ensaio, com um cast de 50 atores, fora maquiadores, cabeleireiros, produtores, sonoplastas, figurinistas, e enfim, tantas outras pessoas envolvidas no espetáculo. Tínhamos uma platéia nos assistindo.
"Champagne, Gerrard! We need to celebrate love! Go, go!"
Renato gritava enquanto todos vinham nos abraçar, e nos entregaram duas taças com champanhe para que brindássemos. Eu não ligava para o restante das pessoas que estavam ali.
Marco era tudo em que me concentrava.
"Você é louco!" Eu dizia pra ele.
"Louco eu seria em decidir viver uma vida sem Ana."
"E se eu tivesse dito não?"
"Você não iria recusar."
"Convencido. Como você podia ter tanta certeza?"
"Eu só tive fé, Ana."
Marco voltou de Londres antes de mim. Fiquei mais 1 mês lá, até o encerramento do espetáculo em Londres.
Voltei para o Brasil tão ansiosa pelo que me aguardava. Lembro até hoje de Marco me esperando com minha mãe e meu pai no aeroporto. Lembro dos abraços, dos beijos apaixonados que trocamos, das noites compartilhadas, das nossas discussões tão pífias, das nossas reconciliações que me faziam até pensar que as brigas valiam a pena, do nosso amor tão genuíno, dos nossos sorrisos, dos nossos abraços. Lembrava da nossa história, do louco pedido de casamento, que era bem mais do que isso. Meu amor por Marco só amadurecia com o passar do tempo.
Ao ver todas aquelas pessoas em pé, sorrindo e se emocionando enquanto eu passava, olhei Marco, tão elegante, tão imponente, tão lindo, com um sorriso de menino no rosto, ansioso me aguardando, enquanto eu ia me aproximando com meu pai e ele cumprimentava Marco. Em seguida me olhou eu disse:
"Filha, eu amo você!" Papai beijou minha testa e sorriu com os olhos cheio de lágrimas. "Cuide bem dela, rapaz!" Papai sorriu e deu uma piscadela para Marco.
"Pode deixar!"
Marco beijo minha mão e me conduziu até o altar. Engraçado pensar em tudo que havíamos passado. Imaginar que durante anos eu nunca idealizei a possibilidade de casar com ele, como a história se reverteu tantas vezes, mas o amor tão puro e sincero de Marco por mim me alcançou, e quando eu o senti não houve como não amá-lo. Por isso quando eu ouvi:
"Você aceita Marco como seu legítimo esposo, prometendo amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na pobreza ou na riqueza, até que a morte os separe?"
Não tive dúvidas em responder:
"Sim!" E, acredite, eu teria dito milhares de "SIMs" se pudesse.
E tão bom quanto dizer foi ouvir. Éramos agora Ana e Marco. Marco e Ana. Vivendo a dois, escolhendo os nomes dos filhos, discutindo quando Marco deixava toalhas molhadas em cima da cama, ou copos espalhados pela pia, assistindo filmes aos sábados a noite, espremidos no sofá quando não havia o que fazer, nos amando e acordando entrelaçados. Criando juntos, cantando nossas canções de amor. Rindo e chorando, nos suportando. Dançando e fazendo cócegas, brigando pelo canal de TV. Revesando na lavagem e secagem da louça. O primeiro bom dia a se ouvir, o último boa noite ao se deitar. Tão completo, tão certo, como dois corações que eram um só, como se nossas vidas houvessem sido feitas com um encaixe em que só nós dois poderíamos caber e não outro alguém.

-FIM-

Agradecimento:
Ao amigos que leram, incentivaram e me cobraram. Foi por vocês que eu concluí o conto.
As pessoas que inspiraram meus personagens.
A todos aqueles que acreditam no amor e têm fé de que é a melhor arma para edificação de um mundo melhor.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ana e Marco. (Parte 20)



Andei recapitulando a minha história. Conheci Ana e gostar dela foi fácil. Gostar de Ana era fácil. Ela era talentosa, sabia me fazer rir, gostava de coisas inusitadas que eu também gostava. Entretanto, apesar de ser encantado por Ana, ela nunca me percebeu, eu também nunca quis me declarar. Ela simplesmente caiu nos braços de outra pessoa. Só me restava seguir em frente. Quando Rita apareceu, subitamente, e me salvou daquela dor que foi amar Ana em silêncio, eu realmente pensei que havia conseguido me desprender de todas aquelas emoções.
Dois anos com Rita, foi um excelente tempo pra construir boas lembranças, pra planejar um futuro, mas talvez meu erro tenho sido sempre manter Ana por perto. Eu estava tão habituado e mal acostumado a tê-la presente, que não me dei conta das proporções que o sentimento dentro de mim estava tomando. Eu simplesmente a amava. Dizia a mim mesmo que não, por muito tempo fiz isso, mas como eu supostamente poderia continuar amar por quem eu sofri tanto. Porque agora ela tinha que confessar esse amor e ir embora. Ela era perita em me magoar. Queria que o amor por ela fosse efêmero. Gostaria de dormir, acordar no dia seguinte e não pensar mais em Ana. agora ela estava do outro lado do oceano e eu aqui, da mesma forma que me senti anos atrás. Mesmo que ela gostasse de mim, o que eu supostamente deveria fazer? Eu era um tanto orgulhoso. Não conseguia aceitar bem o fato de descobrir que estes sentimentos só estavam latentes em mim, agora despontaram, até com mais intensidade do que da primeira vez, pois sem perceber eles simplesmente foram sendo alimentados por mim este tempo todo.
Agora o que me perturbava foi saber o que Ana deve ter passado me vendo com Rita. Saindo com a gente, ajudando escolher alianças. Realmente, se eu me senti machucado, posso dizer que ele sente o mesmo.
Eu, praticamente, divaga em minha mente, enquanto meu chefe falava sobre os nossos principais projetos e novos clientes. Não conseguia prestar atenção a nada.
"O que você acha, Marco?"
"Eu? Bem... Eu acho ótimo!" Eu nem ao menos sabia do que se tratava. Era melhor começar prestar atenção.
"Então, quem você acha devíamos mandar para lá?"
"Pra onde?"
"Marco, Irlanda."
"Ah, claro. Por quanto tempo?" Lá estava eu, constrangido por não ter prestado atenção, tentando disfarçar.
"Irlanda?"
"Sim, Irlanda."
"Eu indico o Julio. Ele é bem preparado pra algo assim e acredito que ele gostaria de morar fora por um tempo."
"Converse com ele e me dê uma resposta hoje. Em duas semanas ele precisa ir."
"Já? Mas eu preciso de um tempo para falar com ele saber se realmente quer isso."
"Convença-o."
Sei que não seria difícil convencê-lo a ir. Júlio era jovem e aventureiro. Era um dos mais dinâmicos e criativos da minha equipe. Ruim seria ter a equipe desfalcada, mas tudo bem.
"Marco!"
"Ei, Carlos!"
"Então, o chefe disse que se você quiser pode usar alguém da minha equipe pra não desfalcar a sua. Pensei, se você quiser a Rita."
"Ei, acho que não é boa ideia no momento. Vou ver como as coisas vão fluir e te digo."
Entrei em minha sala, sentei e me debrucei sobre a mesa, atordoado pelos sentimentos que impregnavam meu coração e tiravam minha concentração do trabalho.
Só queria encontrar a paz, a calma, recobrar a lucidez que o amor me levou, ser feliz por mim e por mais ninguém. Só que logo voltava pensar em Ana, na minha covardia de nunca ter coragem de dizer que eu a queria. Não podia culpá-la totalmente pelas minhas mágoas, afinal, eu fui omisso. Não sei o que eu esperava, que ela chegasse até e mim e dissesse que me amava? Bem, ela já fez isso. Não no momento que era oportuno, mas no mais complicado pra mim.
"Alô, Caio?"
"E aí, irmão. Tudo certo?"
"Certo. Afim de fazer algo hoje?"
"Pode ser, mas você paga."
"Você não tem nem vergonha, seu pilantra. Onde eu te pego?"
"Eu to no estúdio com o Cadu. Passa aqui!"
"Okay. Em uma hora mais ou menos te busco."
Passei no estúdio por volta das 19:40. Caio estava acompanhado de Cadu, seu colega de trabalho.
"Ei, Marco. Cadu pode ir com a gente?"
"Claro. Tudo bem, cara?"
"Tudo sim!"
"Aonde vamos?" Peguntou Caio, todo animado.
"Não sei. Pensei em irmos a algum barzinho ou restaurante aqui por perto."
"Não sei vocês, mas eu to cheio de fome." Disse o Cadu.
"Então vamos comer algo."
Paramos em uma galeteria não muito longe dali.
Eu sinceramente não estava com fome, só pedi alguma coisa pra beber, enquanto Caio e Cadu pareciam estar esfomeados.
"E aí, mano. Quando você me chama pra fazer algo contigo é porque quer conversar. Diz aí?"
"Não tenho nada pra dizer."
Caio soltou uma gargalhada. E me deu aquele olhar desconfiado.
"Vamos, Marco. Pode dizer, eu to aqui pra te escutar. O que a Ana fez dessa vez?"
"Por que você acha que tem alguma relação com ela?"
"Por que depois que você superou aquela sua ex, aquela bem cansada, sabe? Então, não estou falando da Rita, afinal, essa era linda e eu lamento que não tenha dado certo entre vocês. Mas, voltando ao assunto, depois daquela sua ex, a primeira, só a Ana conseguiu deixar você desse jeito. Você é perito em sofrer por mulheres."
"É, talvez eu seja mesmo, engraçadinho." Espremi os lábios e estreitei o olhar para Caio. Não dava pra ter uma conversa séria com ele.
"Okay! Vou falar sério agora. Sempre que você fica chateado assim, é por causa da Ana. Sei lá, parece que quando as coisas vão seguir em frente com você, ela reaparece. Acho que você nunca deixou de gostar dela de verdade."
"Então, ela foi embora. Foi pra Londres."
"Tá brincando?" Caio arregalou os olhos e ficou de boca aberta.
"Quem me dera."
"Quando ela volta?"
"Não tenho ideia. Isso se ela voltar."
"O que ela foi fazer lá?"
"Participar de um espetáculo, ao que me parece."
"Ei, você está falando daquele musical sobre as obras de Shakespeare?" Perguntou Cadu.
"Como assim?"
"É que um brasileiro, Renato Pacheco, participou de um festival sobre Shakespeare em Londres, ele fez um roteiro adaptado com uma espécie de medley entre as histórias mais conhecidas de Shakespeare e foi o vencedor. Então ele ganhou patrocínio de grandes companhias de teatro inglesas pra montar uma mega produção. Os críticos estão ansiosos pra ver."
"Renato Pacheco?" Eu indaguei, Cadu.
"É, um roteirista famoso."
"Não acredito!" Eu conheci Ana em uma festa do Renato, não sabia que eles ainda mantinham contato. Só sei que Renato tinha uma queda por ela, talvez até por isso a tenha convidado.
Caio e Cadu intercalaram olhares entre mim e eles, com expressões confusas.
"Qual o problema, Marco?" Caio perguntou.
"Eu conheço o Renato. É um velho amigo meu dos tempos de teatro."
"Você o conhece? Nossa, cara, eu admiro demais o trabalho dele. Com certeza, se tivesse a oportunidade, gostaria que ele escreve pelo menos um curta pra eu produzir."
Esse pessoal de cinema as vezes me cansava.
"É... Coincidência eu conhecê-lo, não?" Soei em um tom desanimador.
"Sim! Mas cara, quer dizer que a mulher por quem você está apaixonado está em Londres sem previsão de retorno." Cadu disse sacudindo a cabeça, tentando parecer compreensivo.
"Pois é."
"Cara, ela gosta de você também?"
"Ela praticamente se declarou pra mim antes de embarcar."
"Ela é a mulher da sua vida?" Ele disse franzindo a testa.
"Eu sinceramente não sei."
"Cara, se você acha que é, porque não vai atrás dela? Se ela se declarou, provavelmente não vai te dar um fora."
"Ir pra Inglaterra atrás de Ana? Isso não rola." Caio deu outra gargalhada. "Marco gostou dela por tanto tempo e nunca teve coragem de dizer nada, não acho que agora ele teria coragem de ir até lá e dizer o que ele nunca disse."
Meu irmão me subestimava, mas porque não ir atrás de Ana? Até que não era má ideia. O que eu tinha a perder? Não vou viver atormentado por mais um "se". Era tudo ou nada. Comecei pensar na reação de Ana quando visse que eu fui até lá por ela. Bem, se ela não me quisesse, pelo menos eu nunca havia conhecido Londres, era um pretexto. Era arriscar, mas talvez eu precisasse de algo assim. O medo de me magoar mais uma vez nunca me ajudou, parece que só gerou mais feridas, mas eu precisava ter coragem, parar de ser pessimista e pensar que assim como eu poderia sofrer uma decepção, poderia também dar muito certo. Eu precisava de um pouco mais de fé. Eu estava renegando o amor ao invés de aceitá-lo. Comecei a entender que ele não iria acontecer pra mim da forma como eu sempre idealizei, mas eu precisava reconhecê-lo e aceitá-lo da forma como me apareceu.
Enquanto Caio debatia sobre as teorias amorosas de Cadu, um tanto estranhas eu devo dizer, eu fui amadurecendo a ideia em minha mente naqueles poucos instantes que passamos naquela mesa.
"Eu vou atrás de Ana."
"O que? Tá louco, Marco? Ir atrás de mulher. É justamente isso que elas querem. Depois elas te fazem de capacho. Ir a Londres, do outro lado do mundo por uma mulher? Mano, pega leve. Nenhuma mulher vale isso."
"Eu não tenho nada a perder. O que foi que eu ganhei me omitindo tanto, todos esses anos? Nada! Se eu tenho vontade de ficar com ela, eu vou até lá. Ela deva pensar que eu estou quase me casando a essas alturas."
"Casando?"
"É, ela foi embora porque eu ia pedir Rita em casa, mas então ela se declarou e as coisas mudaram..."
"Nossa, cara... que drama complicado esse! Tenso esse triângulo." Disse Cadu, dando um sorriso irônico. "Mas eu te apoio, cara. Quando achamos que vale a pena, temos que nos arriscar, mesmo que pareça loucura."
No dia seguinte fui até a secretária do meu chefe.
"Bom dia, Helena."
"Bom da, Marco. Você quer falar com Senhor Eduardo?"
"Não, é com você mesmo. Preciso de um grande favor."
Expliquei a história toda a Helena. Ela tinha a reputação de conseguir o inusitado. Então pedi pra ela correr atrás do visto pra mim, de passagens e tudo o mais necessário pra viagem.
Em pouco mais de uma semana, Helena tinha tudo pronto. Ela entrou em contato com um cliente nosso por lá, então conseguiu com mais facilidade a documentação necessária, pois eu iria como se fosse a trabalho.
Embarquei em uma sexta de manhã, tempo nublado. O voo atrasou um pouco por conta da nebulosidade.
Assisti alguns seriados, um filme, dormi, ouvi música, brinquei com o bebezinho ao meu lado.
Finalmente cheguei a Londres. Aproximadamente 12 horas de viagem. Sair daquele avião foi uma das melhores sensações do meu ano.
Fui para hotel em que Helena tinha feito as reservas pra mim. Estava surpreso com a competência dela. Até mesmo os horários do musical ela havia me conseguido.
Coloquei minha mala ao lado da cama. Desci pra comer algo ali pelo hotel mesmo. Quando cheguei lá, já se passava das 22:00, então resolvi ficar pelo quarto. Não demorei muito e adormeci pensando que essa era a maior loucura da minha vida. Até ri sozinho, porque talvez assim eu estivesse me permitindo viver uma única vez, e independente do que acontecesse, ela ia saber de uma vez por todas o quanto eu a amei, o quanto eu a amava e o quanto poderia amar se ela me permitisse.
Acordei cedo. Não tive dificuldade de me adaptar ao fuso horário. Pedi que o café fosse servido em meu quarto mesmo. Tomei banho, me arrumei e saí.
Peguei um dos táxis em frente ao hotel para o teatro. A bilheteria ainda não estava aberta. Era muito cedo. Então resolvi andar ali pelo centro da cidade. Caminhando pelo quarteirão do teatro quando eu ouvi:
"Unbelievable! Marco?" Olhei para o lado e lá estava Renato. Não dava pra acreditar. "Cara, de todas as pessoas que eu poderia encontrar aqui, nunca imaginei você!"
No meu caso, eu já imaginava que poderia encontrá-lo, mas não era surpresa.
"Ei, Parabéns pelo espetáculo."
"E o que você faz aqui?"
"Eu? É... Eu... eu vim a trabalho." Gaguejei um pouco, eu era péssimo em mentir assim.
"Ei, tá com muita pressa?"
"Não!"
"Então entra aqui pra ver nosso ensaio. Vai ser bom ter um amigo com quem conversar em português além de Ana."
"Ah, você sabia que ela faz parte do musical?"
"Ela comentou. Fiquei feliz pela oportunidade que você deu a ela."
"Ana, além de linda, é excelente quando atua."
O espetáculo estava no Teatro Haymarket. Um dos teatros mais sofisticados de Londres. Fiquei impressionado com a infra estrutura do lugar.
Sentei-me sozinho na sexta fileira do meio. De frente ao palco, naquela imensidão de cadeiras vazias. Renato se sentou um pouco mais a frente.
Foi então que todo elenco entrou, fazendo o número de abertura do musical.
Após todos saíram de cena,  do canto esquerdo do palco, em um gracioso e clássico grand jeté, Ana surgiu.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Rita e Marco. [Ana - Ausente] (Parte 19)


"E aí? To te esperando!"
"Rita, mil desculpas."
"Acho que a gente precisa conversar. O que está acontecendo, Marco?"
"Não sei. Realmente precisamos conversar."
"Pois é. Você ainda vem?"
"Eu estou indo já."
"Estou esperando."
Desliguei o telefone e não consegui disfarçar minha frustração.
"Argh! Que raiva, vó! Que raiva!"
Joguei-me sobre o sofá, apertando uma almofada contra o corpo e bufando.
"Calma, Rita! O que foi?"
"O Marco, seu queridinho."
"O que tem o Marco?"
"Não sei, vovó! É justamente o que eu quero saber. Nos últimos meses ele anda tão estranho... Não liga, não fala muito, é frio, parece estar fora do ar, se esquece dos combinados."
"Minha filha, já conversou com ele sobre isso? Talvez ele esteja passando por um problema sério!"
"Ah, vó! Sinceramente, não sei se ele gosta mais de mim."
"Oh, minha netinha!"
Vovó se sentou no braço do sofá ao meu lado, estendeu seus braços e me puxou para seu abraço. Não pude conter o choro.
"Filha, vocês precisam se resolver. Nem sempre o amor é do jeito que nós gostaríamos que fosse. Por mais que você goste de Marco, ou que ele seja uma boa pessoa, você não pode estar em uma relação que te faça mal."
"Eu sei vó, mas eu realmente pensei que agora as coisas estavam indo bem."
"Ah, Ritinha. Não é porque o desfecho da história não é como você pensou que as coisas não vão ficar bem. Seja feliz por si mesma, minha querida, encontre um homem que só multiplique essa felicidade."
"Obrigada, vovó! Eu amo você!" Ergui o rosto e encontrei um sorriso de conforto em meio ao pranto. Vovó beijou minha testa e respondeu:
"E eu te amo demais, meu amor."

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Cheguei ao prédio em que Rita morava. Seu Jair, o porteiro, já me conhecia.
Abriu a porta e estendeu a mão por entre a janela da guarida para me cumprimentar.
"Ei, Marco! Tudo bom?"
"Tudo bem, Seu Jair. E contigo?"
"Bem também!"
"Deixa eu correr lá, se não a mulher vai ficar brava comigo."
"Vai lá, Marcão!"
Rita morava no sexto andar. Entrei no elevador e tentei pensar no que dizer. Como explicar. Sei que eu andava meio estranho com Rita. Que as coisas já não eram mais do mesmo jeito. Sabia que havia sido a gota d'água dessa vez. Ela iria querer explicações e, mais do que isso, que eu fosse honesto.
Confesso que fiquei apreensivo em tocar a campainha, hesitei um tanto. Não sabia bem como seria o desenrolar desta conversa. Não que eu não gostasse de Rita, mas só conseguia pensar em Ana. Não era mais a mesma coisa.
Tomei coragem e toquei. Logo ouvi passos vindo em direção a porta e a maçaneta girar.
"Marco." Meu nome nunca soou tão triste em seus lábios. Ela me abraçou ali na entrada de seu apartamento mesmo. Ficamos um tempo naquele abraço, eu apoiando meu queixo sobre sua cabeça, que repousava em meu peito. Então eu disse:
"É melhor entrarmos." Ela assentiu com a cabeça. Entramos de mãos dadas.
Dona Carmem bordava em uma cadeira na varanda, aproveitando a luminosidade o sol daquela manhã. Fui até lá cumprimentá-la.
"Olá, Dona Carmem."
"Marco, querido!" Ela deu aquele sorriso totalmente cativante, não pude deixar de sorrir em retribuição a sua simpatia.
"Tudo bem com a Senhora?"
"Tudo bem, filho. E você?"
"Bem, Dona Carmem."
"Ótimo! Espere que ambos continuemos assim."
"Eu também!" Ela sorriu afetuosamente mais uma vez, e claro que instantaneamente eu sorri de volta.
Rita me puxou para seu quarto. Sentei em sua cama, encostando-me na cabeceira. Ela veio e se acomodou junto a mim. Passei o braço por suas costas, trazendo a mais para perto, e beijando seus cabelos.
"Marco, o que está acontecendo com a gente?"
"Não sei."
Ela balançou a cabeça, que estava repousada sobre meu ombro.
"Seja sincero. Eu sei que está acontecendo algo que você não quer me contar."
"Ah, Rita..." Respirei fundo, tentando encontrar as palavras corretas. Procurando os eufemismos mais sutis que eu pudesse usar.
"Sabe o que machuca? É você não ter coragem de me dizer. Somos adultos já, precisamos ser honestos se quisermos que as coisas fiquem bem entre nós."
"Rita, eu nunca quis te machucar."
"Ninguém machuca alguém de quem gosta propositalmente. Eu acredito que você goste de mim, mas sei que já não há toda aquela intensidade e não sei o que você realmente quer comigo. De uns meses pra cá, você mudou muito."
"Desculpa, eu sei que preciso melhorar, mas as coisas não estão fáceis."
Ela se desencostou do meu corpo e olhou em meus olhos.
"Chega de se desculpar, Marco. Eu quero só que você diga o que está se passando."
"Já disse que as coisas não estão fáceis, é complicado."
"Não estão fáceis, como?" Ela me olhou franzindo a testa.
"Não estão fáceis aqui." Coloquei a mão sobre o lado esquerdo do peito.
Rita afagou meu rosto e colocou sua mão sobre a minha mão repousada no peito.
"Rita, hoje eu... eu fui atrás de Ana." Ela afastou as mãos de mim e arregalou um tanto os olhos. Percebi seus olhos se estreitarem, a testa franzir. Um semblante de inconformismo começava se modelar em seu rosto.
"Mas não é nada do que você pensa. Ela foi embora, sem nem ao menos me avisar. Foi pra Londres."
"O que isso tem a ver com a gente, Marco?"
"Já fazem quase 3 meses que eu e Ana estamos praticamente sem nos falar. Eu... não sei o que dizer mais."
Eu olhei para baixo e chacoalhei a cabeça, pensando no que eu estava fazendo e porque eu estava fazendo. Por que esses dramas de amor tão clichês, com falas repetidas, depreciação sentimental, altos e baixos, faziam parecer que eu andava em círculos?
Parece que todas as perspectivas de finalmente ter uma vida tranquila quanto estas questões do coração, escorriam por entre meus dedos e eu estava voltando a estaca zero.
Rita colocou a mão sob meu queixo e levantou minha cabeça, para encontrar meu olhar perdido novamente.
"Marco, você ainda gosta dela, não é mesmo?"
Eu não consegui responder. Eu tinha um bloqueio para responder perguntas tão diretas, pois eu sabia o quanto isso a machucaria.
"Rita..." Eu segurei sua mão entre as minhas. "Não sei o que está acontecendo comigo. Não posso negar que eu estou triste com a ida dela, mas não sei posso fazer outras afirmações além desta."
"Não sabe? Sinceramente, Marco, ou você começa ser honesto consigo mesmo, porque não é a mim a quem você está enganando. Omitir só vai piorar as coisas."
"Rita, não sei se posso mais fazer isso."
Rita se levantou da cama e foi até a janela. Se virou de costas pra mim, cruzou os braços e ficou olhando para fora.
"Eu não quero que você se magoe mais comigo. Sei que não tenho sido bom pra você nos últimos dias." Levantei e fui até ela. Repousei as mãos sobre seus ombros. Ela levantou os ombros rejeitando meu toque e indo para outro canto do quarto, longe de mim, sem me encarar.
"Eu preferia não ter te conhecido." Percebi a melancolia em seu tom. A voz tremula. Certamente ela estava chorando.
"Rita, eu nunca quis que as coisas chegassem a esse ponto. Não significa que eu não tenha te amado, ou que eu não te ame... é só que..."
"É só que você nunca conseguiu esquecer Ana de verdade. Você nunca vai olhar pra mim como olha pra ela."
"Não é bem assim!"
Ela se virou para mim, então eu pude ver suas lágrimas, sua frustração e aquilo acabou comigo.
"Então é como, Marco? Você sempre fez muita questão dela. Ah, como eu fui burra ao me envolver com você!" Até agora, eu nunca tinha visto Rita com raiva, nem gritar. Percebi a besteira que eu havia feito.
"Eu nunca quis que ninguém se machucasse. Você pensa que eu estou feliz? Que eu não dou importância a tudo que está acontecendo? Eu realmente gosto de você, mas as coisas mudaram e eu me sinto tão atormentado com tudo isso."
"Ana teve todas as chances com você. Agora ela resolve se declarar e fazer todo esse "draminha"
pra chamar tua atenção e consegue."
"Ela não fez nada pra chamar minha atenção. A culpa de tudo isso não é dela, é minha. Só minha! Não tente encontrar outra desculpa."
Rita começou a soluçar e chacoalhou a cabeça.
"Por que, Marco? Por que?"
"Eu não sei. Quem consegue entender o coração? É como se não houvesse diálogo entre ele e a razão."
"Eu pensei que nós até chegaríamos longe... sabe?"
"Ah, eu também pensei. Acredite!"
Fui até Rita e a abracei.
"Por favor, me perdoa? Eu queria tanto que as coisas fossem como antes. Eu nunca te enganei."
"Eu sei." Era tudo o que ela conseguia pronunciar em meio ao choro.
"Agora nós voltamos a estaca zero. Sozinhos de novo."
Rita se afastou e me olhou enxugando as lágrimas.
"É melhor você ir embora."
Eu estendi a mão em direção a seu rosto para ajudá-la com as lágrimas. Mas novamente ela rejeitou.
"Não posso ficar por mais tempo perto de você. É melhor você ir de vez."
Aquilo partia meu coração, mas eu também não podia ficar ali.
"Então... é isso?"
"Pra mim poderia ter sido muito mais, Marco. Preciso ficar sozinha."
"Tá bem."
Eu saí do quarto e uma súbita tristeza invadiu meus sentidos. Agora eu não tinha Ana, não tinha Rita. Não tinha nada. Nem se quer perspectivas, só duas alianças e uma saudade. Saí de lá sob a companhia da solidão que só gerava mais solidão. O cheiro de Rita e de Ana misturados em minha camisa. De tudo, o ninguém e meu ego foi o que sobrou.


sábado, 5 de novembro de 2011

Ana... Marco... Rita... (Parte 18)


Abri os olhos. Um de cada vez. Despertado pela claridade que invadia meu quarto, através da janela que esqueci aberta.
Estava deitado de bruços, com um braço estendido pra fora da cama, quase tocando o chão.
Fechei os olhos, sentei na cama, dei uma boa espreguiçada. Levantei e peguei o celular sobre minha escrivaninha para ver a hora. 9:57. Lembrei que o voo de Ana partia às 11:30. Coloquei a primeira camiseta que encontrei em minha gaveta, vesti a minha calça jeans jogada sobre a cadeira e saí correndo. Quando entrei no carro e me vi no retrovisor, fui obrigado a descer e voltar ao banheiro. Se ao menos quisesse convencer Ana a ficar, devia estar apresentável. Lavei o rosto, não dava tempo de tomar banho. Escovei os dentes e ajeitei o cabelo com as mãos. Passei o Kenzo Air que Ana havia me dado de presente de aniversário. Ela dizia que era seu perfume preferido, pois quando alguém te abraça não esquece o cheiro.
Acredito que nunca me arrumei tão depressa assim, não que eu demorasse tanto, mas fui realmente rápido. Corri para o carro, saí o mais rápido que pude. Meu plano era fazê-la mudar de ideia. A única coisa na qual me concentrava naquele momento, era impedir sua ida. Não estava me importando com o que iria acontecer depois. Não medi as consequências, talvez pelo desespero de que se ela partisse, eu iria ter de aprender viver sem ela. Tudo bem que nós estávamos sem contato há quase 3 meses, mas eu sabia que ela estava por perto e, na minha cabeça, mais cedo ou mais tarde, ela voltaria falar comigo. Só que Ana queria um oceano inteiro de distância de mim. No caminho até o aeroporto cogitei até não procurá-la mais se ela dissesse ficar. Ao menos eu poderia olhá-la de longe, sem que ela soubesse.
Cheguei ao aeroporto às 10:42. Corri para ver no painel o portão de embarque do voo de Ana. Corri com a esperança de que ainda conseguisse falar com Ana, de que ela ainda, por um acaso, estivesse fora do saguão de embarque.
Ouvi o anúncio de que o embarque para o voo já havia começado, enquanto eu estava na entrada do saguão.
"Ei, amigo!" Eu disse para o funcionário que estava na entrada.
"Pois não?"
"Eu preciso muito falar com uma amiga minha que vai pra Londres. O voo dela parte daqui a pouco, as 11:30, e se ela for embora, eu não vou ter outra chance."
"Olha, senhor..." Ele me disse franzindo a testa."Desculpe, mas o embarque para este voo já começou."
"Deixa eu ir até lá, por favor!"
"Desculpe, mas o Senhor não pode entrar. Infelizmente não posso ajudá-lo."
"Você pode pedir pra alguém me acompanhar. Não vou fazer nada demais, só preciso muito falar com ela."
"Senhor, ela já deve estar dentro do avião. Não posso deixá-lo entrar. Não insista."
"Droga!" Chutei o chão, levando as mãos a cabeça. Corri até ali pra nada. Minha tristeza se fundiu a raiva, eu queria gritar. Queria quebrar tudo aquilo que via pela frente, mas de que me adiantaria? Nada adiantaria. Nada traria Ana de volta. Nada faria com que eu me sentisse melhor.
Quando meu mundo desmoronou, quando eu não sabia mais como reagir eu ouvi meu nome:
"Marco?"
Lá estava ela. Pra variar, tremendamente atrasada. Naquele momento anunciaram a última chamada para o embarque daquele voo.
"Ana!"
"Se você veio se despedir seja rápido, como você pode ver, estou atrasada."
Sabia que não podia perder tempo, tinha de ser direto.
Fui até Ana, segurei seus braços e olhei em seus olhos.
"Por favor, não embarque."
"Já é muito tarde pra esse seu pedido."
"Por favor! Se for por minha causa, não vá. Eu prometo ficar longe de você, mas pra outro país? Não! Ana, fica."
"Não tenho motivos pra ficar aqui."
Era patética minha tentativa de convencê-la. Não tinha bons argumentos, e como estava em um relacionamento com Rita, não podia simplesmente fazer uma declaração amorosa.
"Você tem sua família, seus amigos, a empresa."
"Eu já cuidei de tudo isso, Marco."
"De todos eles, mas e eu?" Disse em um tom melancólico.
Ana balançou a cabeça, moveu os lábios como se fosse dizer algo, levou a mão a cabeça e desviou o olhar do meu.
"Eu não posso fazer nada a seu respeito."
"Por que você não me contou?"
"Porque você iria fazer justamente o que está fazendo agora. Tentar me impedir."
"Claro que não!"
"Claro que sim! Eu te conheço. Marco, honestamente, por que você quer que eu fique?"
Ela apertou os olhos e me encarou de uma maneira que fez parecer como se pudesse ler minha mente. Eu sabia o que ela gostaria de ouvir, mas eu não podia dizer.
"Eu preciso de você, Ana."
Foi o melhor que eu pude fazer pra convencê-la.
"Por que precisa de mim? Você pode se virar sem mim."
Eu fiquei mudo. Eu queria dizer, mas não podia. Não devia. Aliás, não devia estar ali. Vi uma lágrima se formar no canto do olho esquerdo dela. Ana levou as mãos aos olhos e enxugou as lágrimas antes que escorressem.
Ela veio em minha direção, se ergueu na ponta dos pés e beijou minha bochecha.
Senti o perfume de Ana, como há tempos eu não sentia. Senti o calor dela, o frio na barriga com a aproximação. Todas aquelas sensações voltaram e eu resistia a todos os meus impulsos.
Então ela sussurrou em meu ouvido.
"Adoro quando você usa esse perfume. Adeus, Marco. Eu amo você."
Ela entregou seu bilhete de embarque aquele rapaz que não me ajudou muito, mas isso já não importava.
"Eu te amo, Ana." Proferi em um sussurro quase que inaudível quando ela se virou para me olhar tão triste já do outro lado, e eu a assistia caminhar com sua mochila nas costas. Então senti meus olhos marejarem, o nó se apertar na garganta e o estomago embrulhar.
Então meu celular tocou.
"Alô?"
"Marco, onde você está?"
Era Rita, a quem eu havia prometido ligar e ver pela manhã, mas havia esquecido completamente.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ana... Marco... Rita... (Parte 17)


Já se passaram quase três meses desde a última vez que vi Ana.
Levei Rita para jantar em uns 5 restaurantes diferentes e não consigo pedi-la em casamento. Fico andando por aí com essas alianças no bolso. Olhando pra elas e pensando no meu futuro tão certo, tão incerto.
Tentei ligar pra Ana. A recusa as minhas ligações e a falta de retorno a emails e mensagens interpretei no começo como falta de tempo. Agora eu sei que ela falou sério quando disse para não procurá-la.
Por que Ana tinha que dizer a essas alturas que me amava? Como ela se sentia no direito de me confundir outra vez?
Já estava há quase dois anos com Rita. Ela era ótima comigo e eu realmente achava que era hora de dar o próximo passo.
Lembro de assistir minha mãe interagindo com Rita e com Ana. Minha mãe tratava bem, Rita, mas de Ana ela realmente gostava.
Meu celular começou a tocar. Eu precisava atender, mas eu queria só ficar sozinho com meus pensamentos. Conversar comigo mesmo e tentar me decifrar.
"Alô?"
"Oi, amor. Tudo bem? Não me ligou hoje." Disse Rita, em um tom perturbado.
"Tá tudo bem sim. Hoje foi um tanto corrido, to com bastante dor de cabeça. E com você?"
"Eu estou bem. Senti sua falta!"
"Eu também." Pela primeira vez eu disse algo assim só por falar, porque é o que se espera ouvir quando alguém te diz isso, principalmente se tratando da sua namorada, ou da mulher a quem você possivelmente pretendia pedir em casamento.
"Eu estive pensando se você não queria passar aqui e..."
"Rita, eu estou meio cansado. Preciso dormir um pouco. De verdade! Desculpa, tá?"
"Está tudo bem realmente?"
"Tá, eu só to com muita dor de cabeça. Preciso dormir um pouco, eu acho. Logo passa. Amanhã cedo eu te ligo." Eu realmente estava com dor de cabeça, mas não era tão forte assim.
"Ok, então. Vou deixar você descansar."
"Desculpa mesmo."
"Tudo bem, espero sua ligação pela manhã."
"Eu prometo. Promessa de mindinho!"
Ouvi o riso de Rita do outro lado.
"Amo você!"
E agora, o que eu respondo? Que amo ela? O que foi que Ana fez comigo? Não posso estar apaixonado por ela outra vez. Não posso, não posso!
"Amanhã te ligo e passo por aí cedinho, tá bem?" Tentei desconversar e envolvê-la em outro assunto.
"Vou te esperar. Beijo, amor."
"Beijo."
O que estava acontecendo comigo? Eu queria ver Ana, quando deveria querer estar com Rita. Que tipo de homem estou me tornando?
Dispensar minha linda namorada em uma sexta-feira a noite, sem nem ao menos passar das nove.
Não conseguia parar de pensar em Ana e sentir remorso por Rita. Resolvi ligar na casa de Ana.
"Alô?"
"Alô? Dona Martha?"
"Quem fala?"
"É o Marco."
"Marco! Que saudades de você! Nunca mais apareceu por aqui. Como você está, meu querido?"
"Eu estou bem, Dona Martha. E a senhora?"
"Bem, Maco!"
"Então, será que eu poderia falar com a Ana?"
"Marco, ela não está em casa agora. Saiu com alguns amigos do elenco."
"Elenco?"
"Você não está sabendo, Marco? Ana vai participar de um musical em Londres. Provavelmente ficará mais de um ano pela Europa, por conta da turnê."
"Ela vai embora? Quando?" Percebi o quão emergente minha voz soou e tentei me controlar.
"Ela parte amanhã, filho."
"Que horas?"
"As 11:30."
"Dona Martha, você pode dizer que eu preciso falar com ela urgente? Antes que ela vá de preferência."
"Claro que digo!"
"Obrigado!"
"Mande lembranças a sua mãe!"
"Sim, farei isso. Até mais, Dona Martha."
"Até, Marco."
Como ela podia partir assim, sem dizer nada? Se fosse definir meu estado, diria estar em choque. Tudo bem que ela pediu pra eu me afastar, mas ao menos merecia saber sobre isso. Ela iria embora amanhã. Um dia a menos, eu ligaria e descobriria que ela já estava em Londres. Por que as coisas tinham de ser tão complicadas pra nós.
Deitei em minha cama, olhando aquele par de alianças que perambulavam comigo por aí. E adormeci, pensando em Rita, pensando em Ana, e em quem eu deveria amar de fato, sendo que eu já amava a quem talvez eu não devesse amar.

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"Ana, Marco ligou."
"E?" Dei de ombros, fingindo não me importar.
"Disse a ele que você está indo embora amanhã."
"Mamãe, eu havia dito a senhora para não contar!" Minha voz ecoou estridente e agressiva.
"É injusto com ele. Você devia ouvir como ele ficou arrasado."
"Mãe, eu não me importo. Arrasado? Com certeza ele não está! Marco vai se casar em breve."
"Mas minha filha, vocês tinham uma amizade tão bonita!"
"Tínhamos, mamãe. Só que essa amizade não dava certo."
"Não dava certo por que, Ana? Você sempre foge de tudo aquilo que não tem coragem de encarar."
"Eu não estou fugindo. Só não sei se consigo ver ele se casando."
"Filha, você realmente gosta dele, não é?"
Fechei os olhos tentando retardar a força das lágrimas que voltavam a encher meus olhos, sempre que a ferida desse sentimento era cutucada. Joguei o peso do meu corpo no sofá, enquanto me rendi a tristeza daquele momento.
Minha mãe se sentou ao meu lado. Deitei em seu colo, enquanto ela acariciava meus cabelos e dizia que tudo ficaria bem.
Ela me convenceu a tomar um banho e ir pra cama.
Deitei pensando em Marco, e que já era tempo de deixar esse amor de lado, embora eu ainda o desejasse ardentemente.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ana, Rita e Marco. (Parte 16)



O que é que você faz quando gosta de alguém e não sabe como dizer? O que você faz quando gosta de alguém e as vezes sente que é correspondido e em outros momentos não?
Complicado é lidar com o coração, principalmente quando você sabe que há a oportunidade de ser feliz de verdade, mas a incerteza do alheio te impede de agir como gostaria, pois o coração corre o risco do que mais teme quando se expõem: rejeição. Rejeição, como machuca.
Agora eu entendo Marco. Sentir, ver, ouvir, sorrir, pensar, tocar e não poder fazer o que você mais gostaria de fazer, amar explicitamente. Agora eu sei, desde o começo eu deveria tê-lo amado. Quando ele me ligou dizendo que iria pedir Rita em casamento, eu fiquei em silêncio por algum tempo, tentando conter o nó na garganta, que se desataria no momento que eu proferisse qualquer palavra. Respirei fundo.
"Eu... Eu fico feliz por vocês!"
"Então, você me ajuda escolher uma aliança?"
"Marco, eu ando meio ocupada com uns projetos ultimamente e..."
"Vamos, Ana! Por favor, preciso de você nesse momento. É importante pra mim!"
"Marco, não sei se tenho o mesmo gosto de Rita!"
"Ana, por favor! Sei que vocês mulheres não tem o mesmo gosto, mas sabem sobre os gostos umas das outras. Ajuda seu velho amigo aqui, seja uma boa madrinha!"
Madrinha? Eu entrei em pânico. E como eu supostamente diria não? Ter de ir ao casamento de Marco, assisti-los no altar, fazendo votos de amor eterno, sem poder fazer nada, além de desejar a felicidade dos dois, celebrar e sorrir. Era demais até pra mim. Nunca fui adepta de dramas amorosos, mas ultimamente, talvez a melhor solução fosse deixar o amor de lado.
"Tá bem!"
"No fim da tarde eu passo pra te buscar!"
"Okay!"
"Ei, obrigado!"
"Não é nada que você não faria por mim!"

"Ei, o que você acha dessas alianças?" Marco perguntou apontando um par de alianças em ouro amarelo, com bordas em ouro branco.
"São lindas..."
"Você acha que ela iria gostar?"
"Sinceramente, ela gostaria de qualquer coisa que você desse."
"Tá tudo bem, Ana?"
Eu virei o rosto para não encará-lo e vi um par de alianças em ouro amarelo simples, tradicionais, grossas, mas nem tanto, só o suficiente para serem notadas.
"Aquelas ali!" Eu sinceramente não apontei pensando no que Rita gostaria, mas sim nas que eu escolheria se fosse pra mim. Óbvio que ela também iria gostar daquelas, então não achei que haveria problema.
A vendedora colocou alguns pares sobre a bancada de vidro, enquanto falava sobre as especificações de cada uma das alianças. Eu sinceramente não prestava muito atenção.
Então a vendedora pegou minha mão sem que eu percebesse pra que eu provasse uma aliança.
Eu dei de ombros e a deixei colocar justamente a aliança que eu havia indicado. Parei por alguns segundos para admirar minha mão com aquele adorno singelo e belo, pensar em como seria ser pedida em casamento, e degustei da sensação, por alguns segundos, do sonho romântico de toda mulher apaixonada se tornando real. Aquela pequena circunferência, um elo sem começo, meio e fim, assim como deveria de ser o amor, pra sempre. Vi Marco olhar minha mão com um sorriso no canto dos lábios, depois olhou pra mim inclinando a cabeça.
"Vou levar essas." Ele disse a vendedora.

Era definitivo, ele realmente iria fazer isso. Eu deveria me desvencilhar daquele sentimento de uma vez por todas.
Fomos em silêncio até minha casa. Eu não tinha o que dizer, não podia dizer, só sei que doía.
"Ana, obrigado! Foi importante pra mim ter você fazendo parte disso, sabe?!"
Eu assenti com a cabeça e sorri para ele, sem ainda conseguir pronunciar qualquer ruído que fosse.
"Ana, tá tudo bem?"
Marco, tirou o cinto e me olhou franzindo a testa. Então eu tomei coragem e disse:
"Eu não posso fazer isso."
"Fazer o que?"
"Não posso ser sua madrinha. Não quero ir a seu casamento. Eu simplesmente não consigo!"
Simplesmente falei. Eu não aguentava guardar tudo aquilo pra mim. Já era hora de ser franca.
"Ana, por que você diz isso só agora?"
"Porque eu simplesmente não consigo parar de pensar em você! Eu... não posso." Senti o nó desatar e os olhos encherem de água, então as lágrimas começaram lavar meu rosto.
"Eu sempre te perguntei se você estava bem com tudo isso!"
"Eu tentei ficar, tá legal? Tentei aceitar seu relacionamento. Tentei me dar bem com Rita. Tentei ser sua melhor amiga. Não consigo simplesmente deixar de amar você."
"Me amar? Você me ama?"
"Seja feliz, Marco!"
"Ei, Ana! Espera!"
Desci do carro antes que ele dissesse algo que fosse me machucar mais. Marco desceu atrás de mim e me puxou pelo braço.
"Precisamos conversar sobre isso."
"Conversar sobre o que, Marco? Você vai se casar. Não se preocupe, eu supero. Só fica longe, por favor."
"Ana, longe? Espera. O que você quer que eu faça?"
"Eu queria, sei lá... Voltar no tempo talvez fosse uma alternativa válida."
Marco me fitou apertando os olhos, espremendo os lábios e balançando a cabeça, como ele fazia quando não sabia o que dizer. Óbvio que ele não esperava por isso.
"Me deixa ir, Marco. Não venha atrás de mim também, por favor."
Entrei em casa, e me encostei na porta, deslizando até o chão, sucumbindo ao choro latente.
Foi então que tomei a decisão.
"Alô? Renato? É a Ana!"
"Oi, Ana! Tudo bem?"
"Tudo! E contigo?"
"Muito bem! Então, tem boas notícias pra mim?"
"Eu resolvi aceitar seu convite. Quero ir pra Londres participar do espetáculo!"

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ana, Rita e Marco. (Parte 15)


"Acorda, preguiçosa! Hoje é dia de tomarmos café juntos."
"Eu quero dormir, Marco! Vou desligar."
"Pára de preguiça, Ana. Levanta! Começa se mexer, o dia tá lindo!"
Marco já estava no portão de casa buzinando, 8 da manhã de um feriado. Eu ficava extremamente irritada com Marco em seus dias de alegria efusiva que me tiravam da cama.
"Eu vou tomar banho, já desço."
"Não demore 2 horas, por favor!"
"Eu não vou te responder."
Ouvi a gargalhada dele.
"Estou te esperando aqui no carro."
Estiquei os braços, pressionando as mãos a cabeceira da cama, seguindo-se uma série de bocejos e espreguiçamentos que faziam parte do meu ritual matinal.
Entrei no banho e deixei que a água escorresse por todo meu corpo, enquanto meu cérebro recobrava a lucidez e despertava inteiramente do meu estado sonolento.
Estava muito quente, então vesti uma regata básica, bermuda jeans e meu converse deluxe creme. Passei meu protetor solar, afinal, deveria preservar a cútis em bom estado para que os anos não pesassem tanto. Peguei os óculos de sol, coloquei meus documentos, cartões, algum dinheiro e meu celular em uma bolsa tiracolo de tecido. Desci as escadas sem pressa e fui até o portão. Mamãe já estava lá papeando com Marco e Rita. Sim, Rita. Eu me sentia a vela do relacionamento, mas ele fazia questão de mim. Saímos os três. Acho que Rita devia me detestar. Há um ano e meio de relacionamento dos dois, eu estou sempre presente. Já ouvi desabafos dos dois lados, já ajudei na escolha de presentes pra ambos. Enfim, isso é um tanto desgastante.
Enquanto Rita e Marco tagarelavam, eu estava meio aérea. Distraída com a calmaria da manhã, com o paisagismo das ruas de São Paulo e as diferentes pessoas que passavam.
"Ei, Rita, nós vamos ao teatro amanhã. Quer nos acompanhar?"
"Não. Tenho outros planos."
"Que planos?" Rita indagou com uma risada sarcástica.
"Planos meus! Faz diferença eu contar?!" Então percebi o quão ríspida minhas palavras soaram, mas dei de ombros, assim como Rita também. Sei que ela ficou feliz por Marco não ter insistido, e certamente um pedido dele eu não recusaria.
Rita se debruçava sobre o ombro de Marco, enquanto ele dirigia e afagava seu rosto. Eu ainda não havia me acostumado com ele agindo com alguém daquela forma.
Chegamos a nossa padaria predileta, que agora compartilhávamos com Rita.
Enquanto os dois batiam boca porque Marco nunca lembrava o que ela queria, eu brincava com os canudos sobre a mesa. Não sei porque eu ainda estava ali com os dois. Logo em seguida fazendo as pazes, com aquela melação, aqueles mimos e aqueles dengos de Rita. Meu único consolo era que Marco estava feliz, mas estar apaixonada pelo melhor amigo e sair por aí acompanhando os dois, era estranho demais até pra mim. Eu precisava parar com aquilo, mas como Rita não gostava que Marco saísse sozinho comigo, ela sempre estava com ele.
Claro que eu a entendo. Afinal, eu fui a paixão dele por um bom tempo. O instinto de Rita era pura autodefesa. Eles realmente se gostavam e estavam felizes, mas eu só estava conformada.
Eu merecia aquilo pela dor que, mesmo não proposital, causei a ele. Eu pensava constantemente que ele poderia ter se declarado pra mim antes e as coisas seriam diferentes, mas eu sempre soube que ele jamais teria coragem. Então, sem me importar, eu seguia. Não imaginava as proporções do sentimento de Marco, embora soubesse que existia.
Estampava aquele sorriso conformado no rosto e não falava muito.
"Ei, Ana, posso saber o que você vai fazer amanhã?"
"Bem... eu vou sair com um amigo."
"Nossa, que boa notícia, amiga!" Disse, Rita, toda entusiasmada, desencostando do ombro de Marco e sorrindo euforicamente para mim. Eu nem precisava ser médium pra descobrir o que talvez tenha passado pela cabeça dela.
Marco arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça com uma expressão confusa.
"Que amigo?"
A verdade que não havia amigo nenhum. Não sei porque inventei essa história, mas eu tinha que me afastar dos dois por um tempo.
"Você não o conhece."
"Você já me falou sobre esse amigo?" Ele perguntou franzindo a testa. Pelo olhar eu já sabia que
ele havia percebido que era mentira.
"Não... acho que não!" Dei de ombros e dei uma golada em meu suco de laranja.
"Ah, Marco... Por que tanta curiosidade? Uma hora ela nos apresentará o misterioso e seremos quatro."
O sorriso meigo de Rita não me convencia tanto. Não sei o que Marco fazia com ela, francamente.
Tudo bem, ela era linda, inteligente, prestativa, carinhosa, mas eles tinham "gêneros", se posso assim dizer, tão diferentes. Não que eu combinasse mais com ele, só que tínhamos mais afinidade, fato.
"Bem... Espero que não seja com um cara que finge esquecer o cartão pra você pagar a conta."
Apertei os olhos para encarar Marco, jogando um guardanapo amassado, que atingiu seu ombro, enquanto ele gargalhava.
"Marco, encare pelo lado bom... Eu não vou ficar no pé de vocês! Certo, Rita? Afinal, um casal precisa de privacidade."
Rita me olhou, repousando a mão no ombro de Marco, com o corpo colocado ao dele. Rapidamente o fitou e deu um sorrido pretensioso, elevando sutilmente os ombros.
"Pelo menos não fui eu quem convidou um travesti para sair por engano!"
Gargalhei, enquanto Rita me acompanhou tirando sarro de Marco.
"Então vai ser assim? Vamos jogar sujo? Sei muita coisa sobre você!"
"Eu também tenho cartas na manga, meu querido. Ei... Lembra daquela viagem a Monte Verde, em que você escreveu um bilhete para aquela minha amiga, a Jéssica, e ao invés de colocar na bolsa dela, colocou na minha, só que você não colocou o nome do destinatário e eu pensei que fosse pra mim... Pior, pensei que havia sido o Cadu, que no final ficou com a Jéssica. Fiquei com tanta raiva dela... E nós dois ficamos sem ninguém..."
Então foi como se minha ficha tivesse caído, o bilhete era pra mim, mas ele mentiu. Na verdade, ele próprio devia ter ajudado o Cadu com a Jéssica, na esperança de que eu percebesse.
Então nossa expressão se alterou, percebi como Marco havia ficado sem jeito porque eu havia percebido isso só agora. Tudo começou fazer sentido e doer mais. Como pude ser cega por tanto tempo?
Rita percebeu a tensão.
"O que aconteceu?"
"Eu preciso ir embora!"
"A gente te leva, fica mais um pouco!" Disse Rita enquanto Marco estava em silêncio.
"Não, eu preciso ir. Fiquem vocês, eu pego um táxi."
Eu não podia ter raiva de Rita, não podia ter raiva de Marco. Eu era a culpada dessa situação.
Por que eu não consigo parar para olhar aquilo de bom que tenho ao redor?
Então senti meu celular vibrar em minha bolsa.
"Alô?"
"Ana, é o Renato. Tudo bem?"
"Olá, Re! Há quanto tempo, não?"
"Bastante tempo. Como vão as coisas?"
"Caminhando. E contigo?"
"Acelerando, diga-se de passagem."
"Que ótimo!"
"E a carreira? Atuando bastante?"
"Re, para ser franca, fazem 6 meses que eu não atuo."
"Olha, tenho uma proposta. Que tal atuar em um dos meus espetáculos em Londres?"
"Londres?"
"A turnê começa lá. Passaremos por toda Europa, praticamente."
"Nossa, Re... Não sei o que dizer! Uau... É uma excelente oportunidade."
"Arriscada também, por isso, darei um tempo pra você me responder até o final da próxima semana."
"Vou pensar e te dou um retorno em breve!"
"Como você quiser! Um Beijo, Ana. Saudades"
"Beijos, Re. Obrigada, pelo convite."

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 14)



Era quase insano fazer o que eu pensava que deveria fazer, negociar minha felicidade por conta de um sentimento de pena, talvez com uma mistura de culpa e receio. Só sei que não podia mais negar o que eu sentia por Marco e o quanto o queria. Ah, os beijos de Marco. Seus lábios tão macios, se movendo tão gentis e apaixonados contra os meus.
Ele se afastou para me olhar, encostou os lábios em minha testa, puxando-me de volta para seu peito e me abraçando com força.
"Nós precisamos realmente conversar, mas precisamos trabalhar também." Ele disse sorrindo.
Então eu lembrei que minha vida possuía outras vertentes e, se quisesse permanecer com meu emprego, deveria correr.
"Eu estou extremamente atrasada, Marco!"
"Calma! Você está comigo, esqueceu?" Ele me fitou com um olhar pretensioso e um sorriso de canto.
"Ah, vamos logo. Meu Deus, o Carlos vai me matar!"
"Relaxa. Ele nunca faz nada. Se ele pegar no teu pé, eu converso com ele."
Entramos no carro de Marco e partimos. Fomos em silêncio até o escritório. Chegamos em aproximadamente 15 minutos.
Marco deixou o carro no estacionamento do prédio. Entramos pelo saguão e fomos esperar um elevador.
Marco, estava parado ao meu lado, com as mãos nos bolsos, olhando pra mim de canto. Talvez ele não soubesse muito bem como agir, e eu também não.
Logo um elevador parou no andar e entramos. Eu primeiro, Marco em seguida.
Paramos de frente para a porta, em silêncio. Quando senti a mão de Marco segurando a minha.
Virei o rosto para olhar, ele estava me olhando, sorrindo.
"Você fica linda quando morde o lábio."
Senti minhas bochechas corarem. Eu tentava disfarçar, mas não me reconhecia perto dele. Tinha uma louca vontade de abraçá-lo, de tê-lo, de beijá-lo. Quando ele sorria, com seus dentes alinhados e perfeitos, eu não podia resistir.
Paramos no andar, ele soltou minha mão.
"Vamos. Primeiro você!"
Ele sempre cavalheiro comigo.
Marco tinha singelas qualidades que faziam total diferença. A sensibilidade, o cavalheirismo, o cuidado, a percepção, a atenção que ele dispensava para ouvir qualquer coisa que eu tivesse a dizer, por mais tola que parecesse.
Fui para minha mesa. Encontrei outra flor e outro bilhete, com a letra de Marco:

Posso desfrutar da sua companhia nesta noite de sexta?
Prometo ser a primeira das melhores noites a se viver!
Marco.'

Em pensar que neste dia eu praticamente havia partido seu coração. O estranho é lembrar do quanto eu fui apaixonada por Ivan, mas este sentimento era algo totalmente novo pra mim. Eu não gostava de Marco pelo que aparentava, eu gostava pelo que era. Ele simplesmente me fazia bem. Apertei o bilhete contra meu peito e dei um suspiro. Eu deveria tomar uma decisão, de uma vez por todas.

"Rita? Tudo bem?" Carlos me fitava com um olhar preocupado.
"Carlos. Sim! E você? Desculpe o atrasado."
"Imagina, Rita. Sei que você tem passado por uma situação difícil com seu noivo. Espero que ele esteja melhor."
Quando ele disse isso, meu coração se apertou. Talvez Ivan nem voltasse mais a andar. O que ele iria pensar, que ao saber disso eu me joguei aos braços de outro? A verdade era que eu já estava apaixonada por Marco antes de Ivan se recuperar do coma.
Engraçado é que no fundo nós sabemos qual a escolha certa. Eu deveria dar um jeito em tudo isso. Apesar das traições de Ivan, da sua indiferença, ele estava arrependido e merecia ser feliz.
Comecei a colocar a papelada da minha mesa em ordem, reaver as campanhas em que estávamos trabalhando e entrar em contato com alguns novos clientes de Carlos.
Passei o expediente praticamente colocando tudo em dia e me focando no trabalho pra não pensar no resto. Quando me dei conta o escritório já estava quase vazio.
"Oi!"
Marco estava parado, encostado a uma divisória do lado esquerdo de minha mesa, com os braços cruzados.
"Rita, eu..."
"Marco!" Eu o interrompi. "Eu acho..."
"Eu sei. Só ia dizer que vou te esperar." Ele me interrompeu, completando sua frase.
"Mais dez minutos e eu vou até a sua sala."
"Estarei lá esperando."
Desliguei o computador. Peguei minhas coisas e fui até Marco.
Não sabia se deveria entrar, se deveria bater antes. As coisas estavam realmente confusas.
Antes que eu tomasse minha decisão a porta se abriu.
"Pode entrar."
Entrei, Marco, convidativo, fechou a porta atras de mim.
Fiquei de pé, em frente a mesa.
"Rita..." Marco veio até mim e segurou minha mão. "Eu... não sei como dizer, mas eu quero você. Eu penso em você, eu sonho... E quando eu passo o dia longe de você, tudo o que eu quero é que a noite chegue logo pra tentar sonhar outra vez, se eu não posso te ter."
Ele olhava paras nossas mãos entrelaçadas enquanto falava.
"Marco..." Eu levantei o rosto dele para olhar em seus olhos, o acariciei, dei um passo para junto dele. "Você faz com que eu me sinta boba." Ele sorriu. Levou minha mão até seu coração, pulsando forte em seu peito.
"E olha o que você faz comigo por dentro."
Então mais uma vez nos beijamos, dessa vez sem pressa, apaixonados, como se tivéssemos esperado o dia todo só para estarmos juntos novamente. Então eu me lembrei de Ivan. Ele era a parte que me angustiava.
Eu me afastei então do envolvente abraço, da sensação de calafrios na barriga que o beijo de Marco me causava.
"Preciso falar com Ivan."
Marco assentiu.
Ele me deixou no hospital e queria me esperar, porém eu pedi pra que fosse embora. Marco entendeu e achou melhor ir, mas deixou claro que se precisasse era só ligar para ele.
Fui até a recepção, peguei o crachá de visitante. Já era conhecida dos enfermeiros e recepcionistas. Perguntei a uma enfermeira do andar em que Ivan estava se ele estava acordado. Ela assentiu com a cabeça.
Fui até seu quarto.
Entrei devagar, passei pelo curto corredor de dentro do quarto e la estava Ivan, com o controle remoto em mãos, mudando de canal.
"Oi, meu amor! Achei que não fosse vir hoje."
"É claro que eu vim." Parei ao pé da cama, dei um sorriso amarelo, constrangida pelo entusiamos com o qual ele me olhava. Ele percebeu que eu não estava como nos outros dias.
"Ei, algum problema?" Ele me olhou franzindo a testa.
Ivan, mesmo estando abalado com a notícia de seu estado, agia como se aquilo não o abatesse.
"Preciso conversar com você. Você me ama?"
"Amo, é claro!"
Eu me aproximei dele pelo lado direito da cama.
"Ama mesmo, ou eu sou a sua única esperança de não morrer sozinho?"
Fuzilei seu olhar com o meu.
"Rita, eu já sabia que uma hora você ia ter essa conversa comigo. Também sei que você não sente mais por mim o que já sentiu. Hoje eu enxergo o quanto desperdicei, e o quão incrível você é. Pode me perdoar?"
"Ivan, a questão não é perdão. Eu já não me importo mais com o passado."
"Então, você deve ter outra pessoa."
Eu desviei meu olhar do dele, não sabia como dizer o que estava acontecendo.
"Ah, eu já deveria imaginar. Droga! Tem outro cara na história. Eu fui idiota de pensar que eu seria o cara de quem você sempre iria gostar... Agora aleijado, quem quer um aleijado?" Vi Ivan se alterar, os batimentos cardíacos subirem, fiquei assustada com sua raiva. Então ele respirou fundo, melancólico e olhou para mim. "Rita..." Suspirou suspirou estendendo sua mão e tocando meu rosto. " Desculpe! Sei que isso não tem nada ver com a minha situação física, nós nem estávamos mais juntos quando tudo aconteceu... Eu sei também que eu fui um cafajeste contigo. Não te dei valor, fui indiferente, só te causei frustração, mas sei que você merece ser feliz. Não tenho o direito de tirar isso de você. Não posso dizer que isso me deixa contente, mas eu te devo pelo mal que lhe fiz. Vá ser feliz! Você precisa... Você merece."
Eu fiquei espantada com a compreensão de Ivan, espantada com sua postura tão madura. Ele não precisava ter passado pelo que passou pra ter essa postura. Lembro de como eu costumava o admirar, seus cabelos lisos, negros, suas grossas sobrancelhas, seus lábios carnudos, seus traços fortes e os olhos verdes. Ivan era o mais cobiçado de nossa turma. Eu fui a escolhida, mas hoje entendo que as coisas não são bem assim. Todas as boas lembranças de momentos nossos regaram meus pensamentos.
Então eu me inclinei para beijar sua testa e nos abraçamos.
"Obrigado por me perdoar... Amigos?" Ele sugeriu com um sorriso amistoso.
"Amigos!"

domingo, 23 de outubro de 2011

Rita, Marco e Ana. (Parte 13)



"Alô?"
"Ei, Marco. Já se esqueceu de mim?"
"Como se fosse possível. Como você tá?"
"Bem. E você?"
"Bem!"
"Fazendo o que de bom neste final de tarde?"
"Deitado no sofá, mudando de canal, tentando me convencer de que uma hora eu acho algo descente pra assistir." Ana sorriu. "E você, fazendo o que?"
"Estava pensando em você, então resolvi ligar. Afinal, são quase 4 dias sem sinal de vida seu."
"É, foram dias corridos. Exceto hoje."
"Você realmente está apaixonado." Ouvi mais uma vez o riso de Ana. "Pra não ter me mandado nem uma mensagem, só pode ser."
"É, eu devo estar mesmo. E nem é por você. Só que eu to precisando de uma amiga."
"Hum... Vou pensar no seu caso."
"Poxa vida! Pensar? Vou pegar o moleton que você me roubou de volta."
"Você disse que não se importava se eu ficasse com ele. Nem vem!"
"Vou começar me importar se você continuar essa amiga negligente e vingativa." Eu ri, estava com saudades de conversar assim com Ana.
"Tudo bem. Do que você precisa?"
"Quero conversar. Não tenho sorte no amor. Por mais perto que eu chegue, ele escapa. O amor deve ser alérgico a mim."
"Ai, Marco. Que drama! Que tal café da manhã as 8:00, amanhã?"
"Assim você me mata. De madrugada, praticamente. Eu vou me atrasar para o trabalho assim."
"Entra um pouco mais tarde. Eu sei que você pode."
"Tudo bem. Só espero que você não chegue de cara inchada."
"Olha só quem fala. Pelo que eu saiba é você que tem problemas pra se levantar, não eu."
"Esqueci que você me conhece. Droga!" Ambos rimos.
"Combinado. Até amanhã. Beijo, Marco. Não me dê um bolo."
"Jamais, senhorita. Beijo. Amanhã sem falta na padaria de sempre."

Confesso que cheguei um tanto atrasado na padaria. Percebi a irritação de Ana só pela forma como ela me olhava enquanto me aproximava, afinal eu nunca chegava atrasado aos nossos encontros. Sentei-me ao lado dela no balcão.
"Desculpa." Sussurrei.
"Tudo bem. Foram só 28 minutos de atraso." Ela disse com um tom sarcástico.
"Bem, eu ainda tenho uma dívida de mais de 10 horas de atrasado pra compensar contigo pelos teus atrasos."
"Agora vai ser assim?" Ela me fitou, sorrindo ironicamente. Eu ri e sacudi a cabeça.
"Claro que não. Você sabe, ainda amo você. Mesmo depois de tudo. Acredite."
"Então, você vai querer o de sempre?"
"Sim. E você?"
"O de sempre."
"Tem coisas que não mudam."
"Ei, amigo!" Estalei os dedos para chamar o garçom. "Dois pães de queijo, dois pães na chapa, um café preto com açúcar e um suco de laranja sem gelo e sem açúcar."
"Impressionante, você ainda lembra? Faz anos que não tomamos café juntos aqui."
"Você ficaria impressionada com a quantidade de coisas que eu sei sobre você."
"Eu acredito. Então, conte-me. O que se passa?"
Virei para olhar Ana. Os cabelos castanhos que emoldurava seu delicado rosto, a testa franzida, apoiando o queixo sobre a mão, esperando o meu relato dos últimos acontecimento da minha vida amorosa.
"Você não vai acreditar, mas depois da nossa conversa, eu estava decidido a ir atrás de Rita e me declarar, e eu fiz isso."
"Então? O que aconteceu?"
"O problema foi que na sexta-feira ela não apareceu na empresa. Então eu fui atrás dela. A encontrei no hospital."
"O que aconteceu?" Ana arregalou os olhos.
"Nada com ela. Mas o ex noivo acordou do coma. O cara tinha sofrido um acidente há um ano atrás e estava lá, vegetando. Quando ela resolve seguir com a vida, ele acorda."
"Marco, meu amigo, você tem um azar."
"Nem me fale. Então fomos conversar e ela disse que gostava de mim, mas resolveu deixar pra lá quando descobriu que eu era apaixonado por você. Que fique claro, eu era! Então, eu também me declarei e quando ela me pediu pra ir embora eu a agarrei. Nós nos beijamos e foi tão intenso aquilo, mas ela não mudou de ideia. Enfim, eu disse que não desistiria dela, só que eu não vou ficar insistindo. Não vou correr atrás, sabe?"
"Nossa, Marco! Que situação. Sabe, se ela gosta de você, ela virá atrás."
"Minha mãe disse o mesmo. Só espero conseguir conviver com a ideia do 'se ela não vier'. A gente acha que já está calejado de desilusões, mas elas sempre machucam da mesma forma, as vezes até mais."
"Ei, não fica assim. Olha só pra você? Está lindo, é um cara incrível e vai encontrar alguém que te valorize como eu não fiz, e que goste de você sem deixar com que o passado interfira isso." Ana inclinou a cabeça para me olhar gentilmente, enquanto segurava minha mão. "Agora beba seu café antes que esfrie."
"Você falou como a minha mãe." Eu sorri para Ana.
"Não vá me confundir com ela, então."
"Tarde demais."
"Ei!" Ana me deu uma cutucada.
"Minha mãe é uma linda e maravilhosa mulher, nunca partiu meu coração."
"Ui, essa doeu."
Colocamos parcialmente a conversa em dia. Depois de uma série de conselhos, ela contou sobre o novo espetáculo do qual está participando. Terminamos o nosso café.
Então me levantei do balcão e dei um beijo na testa de Ana, enquanto ela repousava as mãos sobre o meu peito. Foi então que eu não pude acreditar no que estava acontecendo pela segunda vez comigo. Quando olhei, Rita estava do outro lado do balcão. Lembrei que Rita morava há uma quadra daquela padaria, e que eu era um cara extremamente azarado, ou talvez tudo conspirasse pra que eu realmente fracassasse sempre. Toda aquela sensação de pânico que eu tive ao encontrar Ana no shopping quando estava com Rita começou vir à tona, mas agora ao contrário. Dessa vez era pior. No caso de Ana, eu nunca havia tido nada com ela, não passava de sentimento. Com Rita eu já havia tido contato. Parecia que meu coração iria rasgar o peito com sua palpitação desgovernada. Ana logo notou pela minha súbita palidez e olhar de caos que Rita estava ali.
Rita, simplesmente se virou e saiu da padaria.
Eu queria correr atrás dela, olhei para Ana sem saber se deveria ir ou ficar.
"Vá atrás dela! Não fica me olhando com essa cara."
Dei um beijo na bochecha de Ana.
"Eu te ligo!" Eu disse enquanto corria atrás de Rita.
Rita tentou se apressar, mas o farol aberto do cruzamento impediu que ela atravessasse antes que me aproximasse mais, então pude chegar até ela.
"Rita..." Eu tentava recuperar o fôlego. "Precisamos conversar."
"Já conversamos, Marco. Você se lembra?"
O farol de pedestres ficou verde, mas eu segurei Rita pelo braço antes que ela prosseguisse.
"É sério, Rita."
"Você deixou aquele bilhete pra mim por desencargo de consciência? E eu achando que você gostava de mim, que eu realmente deveria..." Rita cortou a frase no meio e sacudiu a cabeça. "Bem, não importa. É claro que aquilo foi uma despedida."
"Você deveria o que? Rita, olha pra mim. Eu só estava conversando com Ana. Somos amigos. Não temos nada, aliás, eu estava conversando sobre você. Isso não é justo."
"Justo? Você ainda gosta dela, não é?"
"Gosto, mas agora as coisas mudaram. Meu sentimento por ela é bem diferente." Rita cruzou os braços, enquanto batia o pé freneticamente. "Como você acha que eu me senti quando vi você no hospital ao lado daquele tal de Ivan? Eu e Ana nunca tivemos nem se quer um beijo. Nunca passou de amizade, por mais que eu tivesse gostado dela. Agora com você as coisas são diferentes."
Rita descruzou os braços, sacudiu a cabeça e me fitou com uma expressão conflituosa.
"Eu não sei porque estou agindo assim. Eu que te mandei embora aquele dia, não é mesmo? E se você quisesse estar com outra pessoa, eu não sou sua dona. O que eu tenho a ver com isso? Agora eu estou com o Ivan. Eu fiz minha escolha. Eu..."
Enquanto ela desabafava, eu vi as lágrimas se formarem em seus olhos. Eu me aproximei, Rita inclinou a cabeça e a repousou em meu peito, com as mãos cobrindo o rosto pra que eu não visse as lágrimas dela. Então eu a abracei e senti suas mãos se abrirem sobre o meu peito e suas lágrimas, que molhavam minha camisa.
"Marco, eu não sei o que fazer. Ivan está muito mal"
"Ei, tudo vai ficar bem. Eu prometo."
Ela se desvencilhou do meu abraço, se afastou e disse:
"Eu não posso. Você deveria ficar com Ana. Eu preciso cuidar do Ivan."
"Mas o que aconteceu, ele não está se recuperando?"
"Provavelmente ele não volte a andar."
Isso era mais dramático do que eu poderia imaginar. Como negar o pedido de alguém arrependido em tais circunstâncias? Ela voltou a chorar. Eu a abracei novamente.
"Eu vou ajudar no que for preciso. Conte comigo."
"Marco, não. Eu não posso te ter por perto."
"Por que?"
Rita ergueu a cabeça e me encarou.
"Porque eu estou completamente apaixonada por você."
Ela abaixou sua cabeça. Eu não pude resistir mais quando Rita disse isso. Então, gentilmente ergui o rosto de Rita para olhar em seus olhos. Afaguei seu rosto e deixei toda emoção daquele momento fluir por cada parte do meu corpo, até tomar conta de mim por completo e, finalmente, tão emergentes, nossos lábios se encontraram mais uma vez.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 12)


"Ei, Deus! Se você pode me ouvir, preciso de uma ajuda. Esses dramas amorosos realmente desgastam e eu não sei o que fazer agora."
"Com quem ocê tá falando, Marquinho?"
"Eu só estava pensando em voz alta. Precisando de uma ajuda, tio."
Meu tio caminhou até mim, colocou a mão no meu ombro e deu uma risada. "Vamo sair dessa chuva." Fomos correndo até uma espécie de estábulo, onde ficavam dois cavalos que meu tio criava pra nos refugiarmos da chuva.
"Problema com mulher, fio?"
Eu dei um sorriso de canto.
"É. Mulheres complicadas."
"É, Marquinho... Ah, minha primeira mulher... Ninguém entendia porque eu nunca tinha deixado ela. Eu casei sabendo dos 'pobremas' que ela tinha, que a gente nunca iria ter filho, casei porque a amava demais aquela mulher. Devo dizer que mesmo doente, ela era linda, rapaz!" Os olhos de meu tio brilhavam ao falar de sua falecida esposa. Parecia até que ele podia enxergá-la ali. "Eu só não me mudei daqui porque ela amava esse lugar, sabia?!"
"É mesmo, tio? Realmente não imaginava isso."
"Tem coisa que a gente não entende, mas pode acreditar que sempre depois de uma tempestade dessa, o sol volta, Marquinho. Essa chuvarada toda só serve pra limpar o céu."
"Uma chuva não dura pra sempre, não é mesmo, tio?" Eu sorri, enquanto sentava em cima de um monte de feno. Meu tio se sentou no chão ao meu lado.
"Eu só não entendo, como um cabra bonito igual ocê, trabalhador, com a vida feita, tá sozinho. Essa mulher que não te quer deve ser louca, fio."
"Tio, não exagere." Eu sacudi a cabeça, sorrindo. "Mas ela me quer, sim. Só acha que não pode ficar comigo."
"Uai, como assim?"
"É uma longa história. Eu só me meto em triângulos amorosos."
"Tu gosta mesmo dessa mulher?"
"Demorei um pouco pra perceber, mas eu gosto demais."
"Então, se ela gosta d'ocê é só mostrar pra ela que ocêis tem que ficar junto, sobrinho."
"Queria que fosse simples assim."
"Mas é, Marquinho. Se ela te ama, vai ser burrice te largar, fio." Meu tio sorriu pra mim, enquanto apertava meu ombro. "A chuva já parou. Vamo volta pra lá."
Minha mãe conversava amistosamente com a mulher de meu tio, como se fossem amigas de longa data, sorrindo e compartilhando histórias de suas vidas. Meu irmão estava com todos os filhos de meu tio a sua volta, exibindo seu PSP e eles.
Achei melhor partirmos, já que estava escurecendo. Nos despedimos de todos, meu irmão os convidou para irem a nossa casa qualquer dia, meu tio me emprestou uma de suas camisetas para não ter que vestir aquela suja novamente. Confesso que esse passeio até me fez bem. Eu não estava mais angustiado quanto a Rita. Eu só queria que ela fosse feliz, mas é claro que eu queria deixar bem claro que poderia fazê-la tão feliz quanto ela merecia ser, e se Ivan pudesse fazer o mesmo, eu só poderia desejar que eles fossem felizes.
Caio cochilou no banco de trás. Então minha mãe me fitou e perguntou:
"Escuta, você não vai me contar quem é ela?"
"Como assim?"
"A moça que te faz rir em um dia e em outro te faz ficar mau humorado."
Ambos rimos, enquanto ela passava a mão em meus cabelos.
"Ah, mãe, não tenho sorte com mulheres. Elas não me querem!"
"Filho, não diga isso. Você vai encontrar uma moça que goste de você."
"E o que acontece se eu encontrar uma que goste, mas não quer ficar comigo?"
"Marco, se ela gosta, então ela quer ficar com você. Ela só precisa se decidir."
"Infelizmente tem outro cara na jogada."
"Se ela realmente gostar, vocês vão ficar juntos. Se não, é porque ela nunca gostou realmente de você."
"É, tem razão."
Minha mãe se inclinou e beijou meu ombro.
"Você vai ser feliz, meu filho."
Eu sorri para ela e fomos em silêncio até em casa.
Paz, eu estava definitivamente em paz. Só tinha uma coisa que eu tinha que fazer.
Apesar de ser tarde e estar extremamente cansado, deixei meu irmão e minha mãe em casa, fui até o jardim da Dona Beatriz e peguei uma outra tulipa vermelha.
Fui até a casa de Rita, escrevi um bilhetinho em um pedaço de papel que encontrei na minha mochila.

"De toda felicidade que eu poderia desejar a nós, eu a desejo a você. Levo sempre no coração! Com amor, Marco."

Toquei o interfone, o porteiro atendeu:
"Pois não?"
"É o Marco, amigo de Rita."
"Rapaz, você tem uma mania de visitar tarde as pessoas."
"Eu só queria deixar uma coisa aqui na portaria pra ela."
Ele desceu até o portão para pegar o bilhete e a flor. Voltei para casa, sem deixar a ansiedade sucumbir a minha sensação de tranquilidade.

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"Ei, você está com os pés gelados."
"Esquenta eles pra mim?"
Apesar de não abrir os olhos para ver, eu sabia que Rita estava sorrindo.
"A gente precisa levantar."
"Não a gente não precisa." Eu sussurrei em seu ouvido, beijando sua orelha e a puxando pra mais perto.
"Você sabe que não dá pra ficar aqui o dia inteiro."
"A gente pode tentar. Tá frio lá fora." Eu disse a abraçando pelas costas, beijando sua nuca e sentindo seu cheiro.
Rita se virou, deslizou as mãos pelos meus cabelos e me beijou. Ah, e a sensação que os lábios macios dela me provocavam é tão difícil de descrever.
Então ela se esquivou de mim, e eu tentava a puxar de volta, enquanto a ouvia sorrir. Ela abriu as cortinas, permitindo que a luz do sol invadisse o quarto. Então eu me dei por vencido e resolvi abrir os olhos. Comecei a ver a silhueta de Rita, até enxergá-la nitidamente, com aquele gracioso cabelo despenteado, vestindo minha camisa e me puxando frenética e estranhamente pelo braço.

"Acorda, Marco! Acorda!"
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"Marco, já é quase meio dia! Você disse que ia levar mamãe até o mercado hoje."
Eu acordei com Caio me sacudindo.
"Leva você! Pega o carro... Me deixa dormir outra vez."
"Eu vou sair, cara."
"Se você levar eu te empresto o carro."
"Onde estão as chaves?"
Eu apontei pra escrivaninha.
"Valeu, irmãozão!"
Virei para o outro lado, na patética tentativa de voltar ao sonho. Lamentavelmente, só um sonho.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 11)



"Dona Carmem, eu acho que não deveria estar aqui. Sinceramente, não estou entendendo nada... Quem é aquele rapaz?"
"O ex-noivo de Rita." - Ela sussurrou.
O meu coração disparou tamanha a frustração. Por que ela nunca disse nada? Tudo bem, nos conhecemos há pouco tempo, mas será que aquele beijo significou alguma coisa?
Rita fechou as cortinas do quarto e saiu para fora.
"Vovó, a senhora me deve boas explicações."
"Minha filha, você deve explicações a este moço aqui. Não queria me intrometer, mas você precisa pensar melhor nas suas atitudes."
"Marco, eu não sei por onde começar."
"Não precisa dizer nada. Acho que eu não tenho nada pra fazer aqui. Melhoras para o seu... seu... o que quer que ele seja pra você." Só então percebi como as palavras soaram agressivas de minha boca. Não dava pra esconder minha chateação. Jamais importaria o quão bem vestido eu estivesse, ou o quão bonito eu pudesse parecer, nada disso importa quando se trata de amor. Talvez eu desejasse só as mulheres erradas e estivesse descartando alguém ao meu redor que realmente gostasse de mim, mas eu vislumbrei que eu e Rita talvez pudéssemos dar certo.
Eu me virei para ir embora. Fui caminhando pelo corredor enquanto ouvia os passos de apressados atrás de mim.
"Marco, por favor, espera!"
Eu pensei em não parar e ignorar, mas o que aconteceu demais entre nós? Foi só um beijo. Um beijo que partiu da iniciativa dela, claro. Só que fora isso, não tínhamos nenhum compromisso, não tínhamos nada além da amizade.
Então eu parei, disfarçando a real tristeza que eu sentia em olhar pra ela e lembrar das sensações que ela me provocava.
"Ei, vamos conversar, por favor."
"Pode falar, Rita."
"Podemos ir para outro lugar?"
"Você vai deixar seu... enfim, você vai deixá-lo sozinho?"
"Minha vó vai ficar por lá, caso ele acorde. A propósito, seu nome é Ivan."
"Hum... Então, aonde você quer ir?"
"Vamos a lanchonete do hospital."
Entramos no elevador e pode acreditar, o silêncio era constrangedor. Eu não sabia o que dizer, também não tinha muita certeza se gostaria de dizer algo. No fundo eu queria trazer Rita pra perto de mim, beijá-la, abraçá-la ali por quanto tempo eu pudesse, mas eu comecei reprimir todos os meus desejos. Decepção, talvez fosse isso, mas eu precisava ouvir o que ela tinha a dizer. Talvez não fosse nada do que eu pensava. Talvez ainda houvesse esperança.
Nos sentamos em uma mesa, no canto da lanchonete. Rita se apoiou sobre a mesa, com as mãos cruzadas, enquanto balançava os pés, demostrando sua inquietação.
Eu simplesmente me sentei, jogando todo peso de meu corpo sobre o encosto da cadeira, com as mãos sobre as pernas, olhando pra ela, talvez um tanto melancólico, mas tentando parecer calmo, totalmente corroído por dentro no momento.
Ana abaixou a cabeça, passou as mãos em seu cabelos, olhou para mim e disse:
"Eu não sei por onde começar."
"Pelo começo, talvez, mas é só minha opinião." Forcei um sorriso de canto para combinar com meu sarcasmo. Então decidi me calar, afinal eu não estava melhorando a situação.
"Há um ano eu tive uma briga feia com Ivan. Uma amiga minha, amiga não, amiga não faz o que ela fez... Enfim, ela me disse que estava saindo com o Ivan. Que ele era um cafajeste, mentiroso. Eu sempre soube que ela tinha uma queda por ele, mas quando ela me disse, achei que fosse inveja por conta dos comentários sobre a minha aliança, até que ela me mostrou uma foto dos dois juntos. Então depois de uma discussão feia, rompemos. Confesso que ele não era dos melhores, tinha seus defeitos, mas eu o amava, entende?"
"É, acho que entendo." Inclinei a cabeça e espremi os lábios, enquanto o olhar de Rita vagava longe, como se ela estivesse vislumbrando o ocorrido, ou talvez só estivesse sem graça de me encarar.
"Alguns dias depois do rompimento, ele sofreu um acidente por dirigir alcoolizado. O irmão dele faleceu. Ele entrou em coma. A mãe dele disse que isso era minha culpa, não queria nem que eu viesse ao hospital para vê-lo. Disse pra sumir da vida dele. Enfim, eu fiz amizade com uma enfermeira do hospital. Sempre ligava para saber como ele estava, mas os médicos não sabiam nem se um dia ele iria acordar do coma. Os traumas foram muito graves, foi sorte ele ter sobrevivido. Foi exatamente isso que o médico disse. Eu ligava todos os dias, até que comecei ligar menos e menos, até parar de ligar. Todos diziam que eu tinha de começar a viver e deixar o passado pra trás. De alguma forma eu não achava justo saber da sua situação e tocar minha vida como se nada houvesse acontecido. Eu vivi triste por tanto tempo, até te conhecer e sentir uma estranha alegria de novo... Estranha porque eu já não estava mais acostumada a bons sentimentos."
"E então?" Questionei, mais compreensivo, agora eu podia enxergar a situação de Rita.
"Então, eu achei que alguma coisa estivesse acontecendo entre a gente, até encontrarmos aquela sua amiga, Ana, no shopping e perceber que você era apaixonado por ela e não por mim e voltar a minha realidade."
"Rita, hoje eu acordei pensando em você. Eu acordei pra te ver, acordei porque eu queria que nós continuássemos de onde paramos, daquele beijo. Você mudou tudo, por isso eu acordei disposto a tentar."
Eu me inclinei e segurei a mão de Rita, sem me preocupar em ocultar meus impulsos, agora eu sabia que ela realmente sentia o mesmo. Então eu vi seus olhos se encherem de lágrimas. Ela recolheu rispidamente sua mão e se levantou. As lágrimas começaram deslizar pelo delicado rosto de Rita.
"Agora é tarde, Marco. Ivan precisa de mim... Ele... Ele despertou do coma e a primeira pessoa por quem chamou fui eu. Eu vim vê-lo e nós estamos juntos novamente. Eu prometi que ficaria com ele."
Um balde de água fria. Aquelas palavras soaram tão contra o vento, doeram tanto, mas diferente de Ana, eu sabia que Rita me correspondia.
"Desculpe, mas depois de tudo o que ele te fez? Tudo bem que ele sofreu um acidente terrível, que precisa de apoio, de cuidados, de afeto, mas Rita, você sabe que eu jamais faria o que ele te fez."
"Marco, eu não posso desfazer o que já está feito."
"E eu já não consigo pensar em te deixar."
Rita, saiu da lanchonete e foi para o corredor enxugando as lágrimas.
"Marco, você precisa ir embora."
"Não. Eu não vou!"
"Ele não pode te ver aqui."
"Eu não me importo."
Rita parou e me encarou de frente.
"Por favor, eu só preciso que você saia daqui."
"Eu não acho que é realmente isso que você quer."
"Você não sabe o que eu quero."
"Mais do que isso, Rita, eu sinto!"
Pressionei os meus lábios contra os de Rita, enquanto a envolvia em meu abraço, e inutilmente com os punhos fechados em meu peito ela tentava me afastar. Até que ela sucumbiu, e eu podia sentir suas mãos em meus cabelos me puxando pra mais perto, e eu a envolvia mais firme, aproximando nossos corpos o máximo que eu podia. Eu sabia que ela também queria isso. Sentia o gosto salgado das lágrimas que escorriam de seus olhos. Eu sentia a respiração irregular de Rita, sentia o coração dela palpitar tão acelerado quanto meu.
Até que ela afastou seus lábios dos meus, colou a testa contra minha, enquanto eu tentava alcançar novamente seus lábios e ela tentava se esquivar, mas parecia não ter forças pra se desvencilhar do meu abraço.
"Marco..."
Eu parei, sem soltá-la, sem querer fazer isso sabendo que era exatamente o que ela iria pedir.
"Vá embora, por favor."
E a tristeza tomou conta de novo do meu semblante. Por que tudo tinha de ser tão complicado? Então eu me afastei.
"Eu ainda não desisti de você, Rita."
Ela virou o rosto pra não me olhar novamente.
Então eu parti.
Não, eu não ia deixar tudo escapar assim tão fácil. Rita deveria ser mais convincente se realmente não me quisesse mais.

Acordei muito cedo no sábado. Minha mãe vendo que eu estava disperso e não tão alegre quanto no dia anterior, sugeriu que fôssemos ao sítio de um tio meu. A princípio não queria sair de casa, mas pensei que talvez um pouco de ar fresco me faria bem.
Acordei Caio, que estava relutante em sair da cama, até eu dizer que iríamos ao sítio. Então ele se aprontou em exatos 10 minutos.
Eu fui em silêncio, dirigindo por todo caminho, enquanto minha mãe afagava minha nuca, e Caio estava entretido com seu PSP.

Neste sábado o tempo estava seco demais. O calor queimava meu braço através da janela. Mesmo com os vidros fechados e ar condicionado ligado, estava quente demais.
Chegamos ao sítio. Tio Murilo já estava lá nos esperando, com aquele chapéu de peão e um irradiante sorriso em meio a barba branca, que desde menino eu nunca o vi sem.

"Marquinho! Como'cê tá grande, rapaz! É um homi feito já... E ocê, Caio! Como tá crescido também... Mas que saudades do'ceis... E ocê, Maria, minha irmã!" Ele disse abraçando minha mãe, depois de despentear Caio. "Como tá a vida?"

"Vai bem, irmão! Tirei esses meninos daquela casa pra respirar um pouco de ar fresco."
"Fez bem, Maria! Fez bem. Vamo entrando, gente!"

Fomos entrando naquela casa enorme, cheia de crianças, pelo menos uns sete filhos ele tinha, e sua segunda mulher era pelo menos uns 10 anos mais nova. A primeira era estéril e vivia com problemas de saúde, por isso faleceu cedo.

Lembro de quando meus pais me traziam aqui quando criança. Eu costumava ficar jogando pedras no lago para fazê-las pular. Eu era bom nisso.

Depois de jogar bola com as crianças e meu irmão, sujei toda camiseta de terra e pra variar eu não havia trazido outra. Entretanto, até que consegui me distrair bastante durante o dia.
Devo admitir que a mulher de meu tio era uma excelente cozinheira. Em poucas horas ela havia preparado um banquete naquele fogão de lenha. Eles tinham sim um fogão convencional, o sítio não era assim tão rural, mas meu tio queria que soubéssemos a benção que é morar junto a natureza.

Depois do almoço fui até o lago com meu irmão e ficamos jogando pedras. Mas, logo ele se fartou de ficar ali comigo e foi se deitar em uma das redes da varanda junto a nossa mãe. Caio já tinha 19 anos e cursava cinema. Minha mãe pegava um pouco no pé dele, achava que ele devia fazer medicina, direito ou engenharia. Uma dessas coisas que todo o pai gostaria que seu filho fosse.

Fiquei sentado na beira do lago e reparando a beleza daquele lugar. Lembrando do meu falecido pai, que costumava pescar ali comigo enquanto contava uma série de histórias de assombrações, de reis, de guerras e princesas. Típicas estórias de pescador. Eu gostaria que Rita estivesse ali comigo, mas ela tinha decidido por um cara que havia partido seu coração há um ano atrás. Dá pra entender as mulheres? Tudo bem que ele estava mal, acabou de voltar de um coma, todo arrependido, mas Rita precisa saber que eu não vou desistir até que eu a veja no altar com outro cara. O Sol era muito forte, então tirei aquela camiseta suja de terra, e me deitei na grama e a coloquei sob a cabeça, fechei os olhos e fiquei ali.
Fiz um breve balanço da minha vida e fiquei feliz em saber que tinha me libertado dos sentimentos por Ana, e que agora tinha boas lembranças de uma amiga.
Foi então que um vento gelado soprou e o céu escureceu. Senti uma gota cair sobre meu peito. Então me levantei sem pressa. E a chuva começou a cair. Eu simplesmente não me importei, só a deixei me molhar.