quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ana, Rita e Marco. (Parte 15)


"Acorda, preguiçosa! Hoje é dia de tomarmos café juntos."
"Eu quero dormir, Marco! Vou desligar."
"Pára de preguiça, Ana. Levanta! Começa se mexer, o dia tá lindo!"
Marco já estava no portão de casa buzinando, 8 da manhã de um feriado. Eu ficava extremamente irritada com Marco em seus dias de alegria efusiva que me tiravam da cama.
"Eu vou tomar banho, já desço."
"Não demore 2 horas, por favor!"
"Eu não vou te responder."
Ouvi a gargalhada dele.
"Estou te esperando aqui no carro."
Estiquei os braços, pressionando as mãos a cabeceira da cama, seguindo-se uma série de bocejos e espreguiçamentos que faziam parte do meu ritual matinal.
Entrei no banho e deixei que a água escorresse por todo meu corpo, enquanto meu cérebro recobrava a lucidez e despertava inteiramente do meu estado sonolento.
Estava muito quente, então vesti uma regata básica, bermuda jeans e meu converse deluxe creme. Passei meu protetor solar, afinal, deveria preservar a cútis em bom estado para que os anos não pesassem tanto. Peguei os óculos de sol, coloquei meus documentos, cartões, algum dinheiro e meu celular em uma bolsa tiracolo de tecido. Desci as escadas sem pressa e fui até o portão. Mamãe já estava lá papeando com Marco e Rita. Sim, Rita. Eu me sentia a vela do relacionamento, mas ele fazia questão de mim. Saímos os três. Acho que Rita devia me detestar. Há um ano e meio de relacionamento dos dois, eu estou sempre presente. Já ouvi desabafos dos dois lados, já ajudei na escolha de presentes pra ambos. Enfim, isso é um tanto desgastante.
Enquanto Rita e Marco tagarelavam, eu estava meio aérea. Distraída com a calmaria da manhã, com o paisagismo das ruas de São Paulo e as diferentes pessoas que passavam.
"Ei, Rita, nós vamos ao teatro amanhã. Quer nos acompanhar?"
"Não. Tenho outros planos."
"Que planos?" Rita indagou com uma risada sarcástica.
"Planos meus! Faz diferença eu contar?!" Então percebi o quão ríspida minhas palavras soaram, mas dei de ombros, assim como Rita também. Sei que ela ficou feliz por Marco não ter insistido, e certamente um pedido dele eu não recusaria.
Rita se debruçava sobre o ombro de Marco, enquanto ele dirigia e afagava seu rosto. Eu ainda não havia me acostumado com ele agindo com alguém daquela forma.
Chegamos a nossa padaria predileta, que agora compartilhávamos com Rita.
Enquanto os dois batiam boca porque Marco nunca lembrava o que ela queria, eu brincava com os canudos sobre a mesa. Não sei porque eu ainda estava ali com os dois. Logo em seguida fazendo as pazes, com aquela melação, aqueles mimos e aqueles dengos de Rita. Meu único consolo era que Marco estava feliz, mas estar apaixonada pelo melhor amigo e sair por aí acompanhando os dois, era estranho demais até pra mim. Eu precisava parar com aquilo, mas como Rita não gostava que Marco saísse sozinho comigo, ela sempre estava com ele.
Claro que eu a entendo. Afinal, eu fui a paixão dele por um bom tempo. O instinto de Rita era pura autodefesa. Eles realmente se gostavam e estavam felizes, mas eu só estava conformada.
Eu merecia aquilo pela dor que, mesmo não proposital, causei a ele. Eu pensava constantemente que ele poderia ter se declarado pra mim antes e as coisas seriam diferentes, mas eu sempre soube que ele jamais teria coragem. Então, sem me importar, eu seguia. Não imaginava as proporções do sentimento de Marco, embora soubesse que existia.
Estampava aquele sorriso conformado no rosto e não falava muito.
"Ei, Ana, posso saber o que você vai fazer amanhã?"
"Bem... eu vou sair com um amigo."
"Nossa, que boa notícia, amiga!" Disse, Rita, toda entusiasmada, desencostando do ombro de Marco e sorrindo euforicamente para mim. Eu nem precisava ser médium pra descobrir o que talvez tenha passado pela cabeça dela.
Marco arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça com uma expressão confusa.
"Que amigo?"
A verdade que não havia amigo nenhum. Não sei porque inventei essa história, mas eu tinha que me afastar dos dois por um tempo.
"Você não o conhece."
"Você já me falou sobre esse amigo?" Ele perguntou franzindo a testa. Pelo olhar eu já sabia que
ele havia percebido que era mentira.
"Não... acho que não!" Dei de ombros e dei uma golada em meu suco de laranja.
"Ah, Marco... Por que tanta curiosidade? Uma hora ela nos apresentará o misterioso e seremos quatro."
O sorriso meigo de Rita não me convencia tanto. Não sei o que Marco fazia com ela, francamente.
Tudo bem, ela era linda, inteligente, prestativa, carinhosa, mas eles tinham "gêneros", se posso assim dizer, tão diferentes. Não que eu combinasse mais com ele, só que tínhamos mais afinidade, fato.
"Bem... Espero que não seja com um cara que finge esquecer o cartão pra você pagar a conta."
Apertei os olhos para encarar Marco, jogando um guardanapo amassado, que atingiu seu ombro, enquanto ele gargalhava.
"Marco, encare pelo lado bom... Eu não vou ficar no pé de vocês! Certo, Rita? Afinal, um casal precisa de privacidade."
Rita me olhou, repousando a mão no ombro de Marco, com o corpo colocado ao dele. Rapidamente o fitou e deu um sorrido pretensioso, elevando sutilmente os ombros.
"Pelo menos não fui eu quem convidou um travesti para sair por engano!"
Gargalhei, enquanto Rita me acompanhou tirando sarro de Marco.
"Então vai ser assim? Vamos jogar sujo? Sei muita coisa sobre você!"
"Eu também tenho cartas na manga, meu querido. Ei... Lembra daquela viagem a Monte Verde, em que você escreveu um bilhete para aquela minha amiga, a Jéssica, e ao invés de colocar na bolsa dela, colocou na minha, só que você não colocou o nome do destinatário e eu pensei que fosse pra mim... Pior, pensei que havia sido o Cadu, que no final ficou com a Jéssica. Fiquei com tanta raiva dela... E nós dois ficamos sem ninguém..."
Então foi como se minha ficha tivesse caído, o bilhete era pra mim, mas ele mentiu. Na verdade, ele próprio devia ter ajudado o Cadu com a Jéssica, na esperança de que eu percebesse.
Então nossa expressão se alterou, percebi como Marco havia ficado sem jeito porque eu havia percebido isso só agora. Tudo começou fazer sentido e doer mais. Como pude ser cega por tanto tempo?
Rita percebeu a tensão.
"O que aconteceu?"
"Eu preciso ir embora!"
"A gente te leva, fica mais um pouco!" Disse Rita enquanto Marco estava em silêncio.
"Não, eu preciso ir. Fiquem vocês, eu pego um táxi."
Eu não podia ter raiva de Rita, não podia ter raiva de Marco. Eu era a culpada dessa situação.
Por que eu não consigo parar para olhar aquilo de bom que tenho ao redor?
Então senti meu celular vibrar em minha bolsa.
"Alô?"
"Ana, é o Renato. Tudo bem?"
"Olá, Re! Há quanto tempo, não?"
"Bastante tempo. Como vão as coisas?"
"Caminhando. E contigo?"
"Acelerando, diga-se de passagem."
"Que ótimo!"
"E a carreira? Atuando bastante?"
"Re, para ser franca, fazem 6 meses que eu não atuo."
"Olha, tenho uma proposta. Que tal atuar em um dos meus espetáculos em Londres?"
"Londres?"
"A turnê começa lá. Passaremos por toda Europa, praticamente."
"Nossa, Re... Não sei o que dizer! Uau... É uma excelente oportunidade."
"Arriscada também, por isso, darei um tempo pra você me responder até o final da próxima semana."
"Vou pensar e te dou um retorno em breve!"
"Como você quiser! Um Beijo, Ana. Saudades"
"Beijos, Re. Obrigada, pelo convite."

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 14)



Era quase insano fazer o que eu pensava que deveria fazer, negociar minha felicidade por conta de um sentimento de pena, talvez com uma mistura de culpa e receio. Só sei que não podia mais negar o que eu sentia por Marco e o quanto o queria. Ah, os beijos de Marco. Seus lábios tão macios, se movendo tão gentis e apaixonados contra os meus.
Ele se afastou para me olhar, encostou os lábios em minha testa, puxando-me de volta para seu peito e me abraçando com força.
"Nós precisamos realmente conversar, mas precisamos trabalhar também." Ele disse sorrindo.
Então eu lembrei que minha vida possuía outras vertentes e, se quisesse permanecer com meu emprego, deveria correr.
"Eu estou extremamente atrasada, Marco!"
"Calma! Você está comigo, esqueceu?" Ele me fitou com um olhar pretensioso e um sorriso de canto.
"Ah, vamos logo. Meu Deus, o Carlos vai me matar!"
"Relaxa. Ele nunca faz nada. Se ele pegar no teu pé, eu converso com ele."
Entramos no carro de Marco e partimos. Fomos em silêncio até o escritório. Chegamos em aproximadamente 15 minutos.
Marco deixou o carro no estacionamento do prédio. Entramos pelo saguão e fomos esperar um elevador.
Marco, estava parado ao meu lado, com as mãos nos bolsos, olhando pra mim de canto. Talvez ele não soubesse muito bem como agir, e eu também não.
Logo um elevador parou no andar e entramos. Eu primeiro, Marco em seguida.
Paramos de frente para a porta, em silêncio. Quando senti a mão de Marco segurando a minha.
Virei o rosto para olhar, ele estava me olhando, sorrindo.
"Você fica linda quando morde o lábio."
Senti minhas bochechas corarem. Eu tentava disfarçar, mas não me reconhecia perto dele. Tinha uma louca vontade de abraçá-lo, de tê-lo, de beijá-lo. Quando ele sorria, com seus dentes alinhados e perfeitos, eu não podia resistir.
Paramos no andar, ele soltou minha mão.
"Vamos. Primeiro você!"
Ele sempre cavalheiro comigo.
Marco tinha singelas qualidades que faziam total diferença. A sensibilidade, o cavalheirismo, o cuidado, a percepção, a atenção que ele dispensava para ouvir qualquer coisa que eu tivesse a dizer, por mais tola que parecesse.
Fui para minha mesa. Encontrei outra flor e outro bilhete, com a letra de Marco:

Posso desfrutar da sua companhia nesta noite de sexta?
Prometo ser a primeira das melhores noites a se viver!
Marco.'

Em pensar que neste dia eu praticamente havia partido seu coração. O estranho é lembrar do quanto eu fui apaixonada por Ivan, mas este sentimento era algo totalmente novo pra mim. Eu não gostava de Marco pelo que aparentava, eu gostava pelo que era. Ele simplesmente me fazia bem. Apertei o bilhete contra meu peito e dei um suspiro. Eu deveria tomar uma decisão, de uma vez por todas.

"Rita? Tudo bem?" Carlos me fitava com um olhar preocupado.
"Carlos. Sim! E você? Desculpe o atrasado."
"Imagina, Rita. Sei que você tem passado por uma situação difícil com seu noivo. Espero que ele esteja melhor."
Quando ele disse isso, meu coração se apertou. Talvez Ivan nem voltasse mais a andar. O que ele iria pensar, que ao saber disso eu me joguei aos braços de outro? A verdade era que eu já estava apaixonada por Marco antes de Ivan se recuperar do coma.
Engraçado é que no fundo nós sabemos qual a escolha certa. Eu deveria dar um jeito em tudo isso. Apesar das traições de Ivan, da sua indiferença, ele estava arrependido e merecia ser feliz.
Comecei a colocar a papelada da minha mesa em ordem, reaver as campanhas em que estávamos trabalhando e entrar em contato com alguns novos clientes de Carlos.
Passei o expediente praticamente colocando tudo em dia e me focando no trabalho pra não pensar no resto. Quando me dei conta o escritório já estava quase vazio.
"Oi!"
Marco estava parado, encostado a uma divisória do lado esquerdo de minha mesa, com os braços cruzados.
"Rita, eu..."
"Marco!" Eu o interrompi. "Eu acho..."
"Eu sei. Só ia dizer que vou te esperar." Ele me interrompeu, completando sua frase.
"Mais dez minutos e eu vou até a sua sala."
"Estarei lá esperando."
Desliguei o computador. Peguei minhas coisas e fui até Marco.
Não sabia se deveria entrar, se deveria bater antes. As coisas estavam realmente confusas.
Antes que eu tomasse minha decisão a porta se abriu.
"Pode entrar."
Entrei, Marco, convidativo, fechou a porta atras de mim.
Fiquei de pé, em frente a mesa.
"Rita..." Marco veio até mim e segurou minha mão. "Eu... não sei como dizer, mas eu quero você. Eu penso em você, eu sonho... E quando eu passo o dia longe de você, tudo o que eu quero é que a noite chegue logo pra tentar sonhar outra vez, se eu não posso te ter."
Ele olhava paras nossas mãos entrelaçadas enquanto falava.
"Marco..." Eu levantei o rosto dele para olhar em seus olhos, o acariciei, dei um passo para junto dele. "Você faz com que eu me sinta boba." Ele sorriu. Levou minha mão até seu coração, pulsando forte em seu peito.
"E olha o que você faz comigo por dentro."
Então mais uma vez nos beijamos, dessa vez sem pressa, apaixonados, como se tivéssemos esperado o dia todo só para estarmos juntos novamente. Então eu me lembrei de Ivan. Ele era a parte que me angustiava.
Eu me afastei então do envolvente abraço, da sensação de calafrios na barriga que o beijo de Marco me causava.
"Preciso falar com Ivan."
Marco assentiu.
Ele me deixou no hospital e queria me esperar, porém eu pedi pra que fosse embora. Marco entendeu e achou melhor ir, mas deixou claro que se precisasse era só ligar para ele.
Fui até a recepção, peguei o crachá de visitante. Já era conhecida dos enfermeiros e recepcionistas. Perguntei a uma enfermeira do andar em que Ivan estava se ele estava acordado. Ela assentiu com a cabeça.
Fui até seu quarto.
Entrei devagar, passei pelo curto corredor de dentro do quarto e la estava Ivan, com o controle remoto em mãos, mudando de canal.
"Oi, meu amor! Achei que não fosse vir hoje."
"É claro que eu vim." Parei ao pé da cama, dei um sorriso amarelo, constrangida pelo entusiamos com o qual ele me olhava. Ele percebeu que eu não estava como nos outros dias.
"Ei, algum problema?" Ele me olhou franzindo a testa.
Ivan, mesmo estando abalado com a notícia de seu estado, agia como se aquilo não o abatesse.
"Preciso conversar com você. Você me ama?"
"Amo, é claro!"
Eu me aproximei dele pelo lado direito da cama.
"Ama mesmo, ou eu sou a sua única esperança de não morrer sozinho?"
Fuzilei seu olhar com o meu.
"Rita, eu já sabia que uma hora você ia ter essa conversa comigo. Também sei que você não sente mais por mim o que já sentiu. Hoje eu enxergo o quanto desperdicei, e o quão incrível você é. Pode me perdoar?"
"Ivan, a questão não é perdão. Eu já não me importo mais com o passado."
"Então, você deve ter outra pessoa."
Eu desviei meu olhar do dele, não sabia como dizer o que estava acontecendo.
"Ah, eu já deveria imaginar. Droga! Tem outro cara na história. Eu fui idiota de pensar que eu seria o cara de quem você sempre iria gostar... Agora aleijado, quem quer um aleijado?" Vi Ivan se alterar, os batimentos cardíacos subirem, fiquei assustada com sua raiva. Então ele respirou fundo, melancólico e olhou para mim. "Rita..." Suspirou suspirou estendendo sua mão e tocando meu rosto. " Desculpe! Sei que isso não tem nada ver com a minha situação física, nós nem estávamos mais juntos quando tudo aconteceu... Eu sei também que eu fui um cafajeste contigo. Não te dei valor, fui indiferente, só te causei frustração, mas sei que você merece ser feliz. Não tenho o direito de tirar isso de você. Não posso dizer que isso me deixa contente, mas eu te devo pelo mal que lhe fiz. Vá ser feliz! Você precisa... Você merece."
Eu fiquei espantada com a compreensão de Ivan, espantada com sua postura tão madura. Ele não precisava ter passado pelo que passou pra ter essa postura. Lembro de como eu costumava o admirar, seus cabelos lisos, negros, suas grossas sobrancelhas, seus lábios carnudos, seus traços fortes e os olhos verdes. Ivan era o mais cobiçado de nossa turma. Eu fui a escolhida, mas hoje entendo que as coisas não são bem assim. Todas as boas lembranças de momentos nossos regaram meus pensamentos.
Então eu me inclinei para beijar sua testa e nos abraçamos.
"Obrigado por me perdoar... Amigos?" Ele sugeriu com um sorriso amistoso.
"Amigos!"

domingo, 23 de outubro de 2011

Rita, Marco e Ana. (Parte 13)



"Alô?"
"Ei, Marco. Já se esqueceu de mim?"
"Como se fosse possível. Como você tá?"
"Bem. E você?"
"Bem!"
"Fazendo o que de bom neste final de tarde?"
"Deitado no sofá, mudando de canal, tentando me convencer de que uma hora eu acho algo descente pra assistir." Ana sorriu. "E você, fazendo o que?"
"Estava pensando em você, então resolvi ligar. Afinal, são quase 4 dias sem sinal de vida seu."
"É, foram dias corridos. Exceto hoje."
"Você realmente está apaixonado." Ouvi mais uma vez o riso de Ana. "Pra não ter me mandado nem uma mensagem, só pode ser."
"É, eu devo estar mesmo. E nem é por você. Só que eu to precisando de uma amiga."
"Hum... Vou pensar no seu caso."
"Poxa vida! Pensar? Vou pegar o moleton que você me roubou de volta."
"Você disse que não se importava se eu ficasse com ele. Nem vem!"
"Vou começar me importar se você continuar essa amiga negligente e vingativa." Eu ri, estava com saudades de conversar assim com Ana.
"Tudo bem. Do que você precisa?"
"Quero conversar. Não tenho sorte no amor. Por mais perto que eu chegue, ele escapa. O amor deve ser alérgico a mim."
"Ai, Marco. Que drama! Que tal café da manhã as 8:00, amanhã?"
"Assim você me mata. De madrugada, praticamente. Eu vou me atrasar para o trabalho assim."
"Entra um pouco mais tarde. Eu sei que você pode."
"Tudo bem. Só espero que você não chegue de cara inchada."
"Olha só quem fala. Pelo que eu saiba é você que tem problemas pra se levantar, não eu."
"Esqueci que você me conhece. Droga!" Ambos rimos.
"Combinado. Até amanhã. Beijo, Marco. Não me dê um bolo."
"Jamais, senhorita. Beijo. Amanhã sem falta na padaria de sempre."

Confesso que cheguei um tanto atrasado na padaria. Percebi a irritação de Ana só pela forma como ela me olhava enquanto me aproximava, afinal eu nunca chegava atrasado aos nossos encontros. Sentei-me ao lado dela no balcão.
"Desculpa." Sussurrei.
"Tudo bem. Foram só 28 minutos de atraso." Ela disse com um tom sarcástico.
"Bem, eu ainda tenho uma dívida de mais de 10 horas de atrasado pra compensar contigo pelos teus atrasos."
"Agora vai ser assim?" Ela me fitou, sorrindo ironicamente. Eu ri e sacudi a cabeça.
"Claro que não. Você sabe, ainda amo você. Mesmo depois de tudo. Acredite."
"Então, você vai querer o de sempre?"
"Sim. E você?"
"O de sempre."
"Tem coisas que não mudam."
"Ei, amigo!" Estalei os dedos para chamar o garçom. "Dois pães de queijo, dois pães na chapa, um café preto com açúcar e um suco de laranja sem gelo e sem açúcar."
"Impressionante, você ainda lembra? Faz anos que não tomamos café juntos aqui."
"Você ficaria impressionada com a quantidade de coisas que eu sei sobre você."
"Eu acredito. Então, conte-me. O que se passa?"
Virei para olhar Ana. Os cabelos castanhos que emoldurava seu delicado rosto, a testa franzida, apoiando o queixo sobre a mão, esperando o meu relato dos últimos acontecimento da minha vida amorosa.
"Você não vai acreditar, mas depois da nossa conversa, eu estava decidido a ir atrás de Rita e me declarar, e eu fiz isso."
"Então? O que aconteceu?"
"O problema foi que na sexta-feira ela não apareceu na empresa. Então eu fui atrás dela. A encontrei no hospital."
"O que aconteceu?" Ana arregalou os olhos.
"Nada com ela. Mas o ex noivo acordou do coma. O cara tinha sofrido um acidente há um ano atrás e estava lá, vegetando. Quando ela resolve seguir com a vida, ele acorda."
"Marco, meu amigo, você tem um azar."
"Nem me fale. Então fomos conversar e ela disse que gostava de mim, mas resolveu deixar pra lá quando descobriu que eu era apaixonado por você. Que fique claro, eu era! Então, eu também me declarei e quando ela me pediu pra ir embora eu a agarrei. Nós nos beijamos e foi tão intenso aquilo, mas ela não mudou de ideia. Enfim, eu disse que não desistiria dela, só que eu não vou ficar insistindo. Não vou correr atrás, sabe?"
"Nossa, Marco! Que situação. Sabe, se ela gosta de você, ela virá atrás."
"Minha mãe disse o mesmo. Só espero conseguir conviver com a ideia do 'se ela não vier'. A gente acha que já está calejado de desilusões, mas elas sempre machucam da mesma forma, as vezes até mais."
"Ei, não fica assim. Olha só pra você? Está lindo, é um cara incrível e vai encontrar alguém que te valorize como eu não fiz, e que goste de você sem deixar com que o passado interfira isso." Ana inclinou a cabeça para me olhar gentilmente, enquanto segurava minha mão. "Agora beba seu café antes que esfrie."
"Você falou como a minha mãe." Eu sorri para Ana.
"Não vá me confundir com ela, então."
"Tarde demais."
"Ei!" Ana me deu uma cutucada.
"Minha mãe é uma linda e maravilhosa mulher, nunca partiu meu coração."
"Ui, essa doeu."
Colocamos parcialmente a conversa em dia. Depois de uma série de conselhos, ela contou sobre o novo espetáculo do qual está participando. Terminamos o nosso café.
Então me levantei do balcão e dei um beijo na testa de Ana, enquanto ela repousava as mãos sobre o meu peito. Foi então que eu não pude acreditar no que estava acontecendo pela segunda vez comigo. Quando olhei, Rita estava do outro lado do balcão. Lembrei que Rita morava há uma quadra daquela padaria, e que eu era um cara extremamente azarado, ou talvez tudo conspirasse pra que eu realmente fracassasse sempre. Toda aquela sensação de pânico que eu tive ao encontrar Ana no shopping quando estava com Rita começou vir à tona, mas agora ao contrário. Dessa vez era pior. No caso de Ana, eu nunca havia tido nada com ela, não passava de sentimento. Com Rita eu já havia tido contato. Parecia que meu coração iria rasgar o peito com sua palpitação desgovernada. Ana logo notou pela minha súbita palidez e olhar de caos que Rita estava ali.
Rita, simplesmente se virou e saiu da padaria.
Eu queria correr atrás dela, olhei para Ana sem saber se deveria ir ou ficar.
"Vá atrás dela! Não fica me olhando com essa cara."
Dei um beijo na bochecha de Ana.
"Eu te ligo!" Eu disse enquanto corria atrás de Rita.
Rita tentou se apressar, mas o farol aberto do cruzamento impediu que ela atravessasse antes que me aproximasse mais, então pude chegar até ela.
"Rita..." Eu tentava recuperar o fôlego. "Precisamos conversar."
"Já conversamos, Marco. Você se lembra?"
O farol de pedestres ficou verde, mas eu segurei Rita pelo braço antes que ela prosseguisse.
"É sério, Rita."
"Você deixou aquele bilhete pra mim por desencargo de consciência? E eu achando que você gostava de mim, que eu realmente deveria..." Rita cortou a frase no meio e sacudiu a cabeça. "Bem, não importa. É claro que aquilo foi uma despedida."
"Você deveria o que? Rita, olha pra mim. Eu só estava conversando com Ana. Somos amigos. Não temos nada, aliás, eu estava conversando sobre você. Isso não é justo."
"Justo? Você ainda gosta dela, não é?"
"Gosto, mas agora as coisas mudaram. Meu sentimento por ela é bem diferente." Rita cruzou os braços, enquanto batia o pé freneticamente. "Como você acha que eu me senti quando vi você no hospital ao lado daquele tal de Ivan? Eu e Ana nunca tivemos nem se quer um beijo. Nunca passou de amizade, por mais que eu tivesse gostado dela. Agora com você as coisas são diferentes."
Rita descruzou os braços, sacudiu a cabeça e me fitou com uma expressão conflituosa.
"Eu não sei porque estou agindo assim. Eu que te mandei embora aquele dia, não é mesmo? E se você quisesse estar com outra pessoa, eu não sou sua dona. O que eu tenho a ver com isso? Agora eu estou com o Ivan. Eu fiz minha escolha. Eu..."
Enquanto ela desabafava, eu vi as lágrimas se formarem em seus olhos. Eu me aproximei, Rita inclinou a cabeça e a repousou em meu peito, com as mãos cobrindo o rosto pra que eu não visse as lágrimas dela. Então eu a abracei e senti suas mãos se abrirem sobre o meu peito e suas lágrimas, que molhavam minha camisa.
"Marco, eu não sei o que fazer. Ivan está muito mal"
"Ei, tudo vai ficar bem. Eu prometo."
Ela se desvencilhou do meu abraço, se afastou e disse:
"Eu não posso. Você deveria ficar com Ana. Eu preciso cuidar do Ivan."
"Mas o que aconteceu, ele não está se recuperando?"
"Provavelmente ele não volte a andar."
Isso era mais dramático do que eu poderia imaginar. Como negar o pedido de alguém arrependido em tais circunstâncias? Ela voltou a chorar. Eu a abracei novamente.
"Eu vou ajudar no que for preciso. Conte comigo."
"Marco, não. Eu não posso te ter por perto."
"Por que?"
Rita ergueu a cabeça e me encarou.
"Porque eu estou completamente apaixonada por você."
Ela abaixou sua cabeça. Eu não pude resistir mais quando Rita disse isso. Então, gentilmente ergui o rosto de Rita para olhar em seus olhos. Afaguei seu rosto e deixei toda emoção daquele momento fluir por cada parte do meu corpo, até tomar conta de mim por completo e, finalmente, tão emergentes, nossos lábios se encontraram mais uma vez.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 12)


"Ei, Deus! Se você pode me ouvir, preciso de uma ajuda. Esses dramas amorosos realmente desgastam e eu não sei o que fazer agora."
"Com quem ocê tá falando, Marquinho?"
"Eu só estava pensando em voz alta. Precisando de uma ajuda, tio."
Meu tio caminhou até mim, colocou a mão no meu ombro e deu uma risada. "Vamo sair dessa chuva." Fomos correndo até uma espécie de estábulo, onde ficavam dois cavalos que meu tio criava pra nos refugiarmos da chuva.
"Problema com mulher, fio?"
Eu dei um sorriso de canto.
"É. Mulheres complicadas."
"É, Marquinho... Ah, minha primeira mulher... Ninguém entendia porque eu nunca tinha deixado ela. Eu casei sabendo dos 'pobremas' que ela tinha, que a gente nunca iria ter filho, casei porque a amava demais aquela mulher. Devo dizer que mesmo doente, ela era linda, rapaz!" Os olhos de meu tio brilhavam ao falar de sua falecida esposa. Parecia até que ele podia enxergá-la ali. "Eu só não me mudei daqui porque ela amava esse lugar, sabia?!"
"É mesmo, tio? Realmente não imaginava isso."
"Tem coisa que a gente não entende, mas pode acreditar que sempre depois de uma tempestade dessa, o sol volta, Marquinho. Essa chuvarada toda só serve pra limpar o céu."
"Uma chuva não dura pra sempre, não é mesmo, tio?" Eu sorri, enquanto sentava em cima de um monte de feno. Meu tio se sentou no chão ao meu lado.
"Eu só não entendo, como um cabra bonito igual ocê, trabalhador, com a vida feita, tá sozinho. Essa mulher que não te quer deve ser louca, fio."
"Tio, não exagere." Eu sacudi a cabeça, sorrindo. "Mas ela me quer, sim. Só acha que não pode ficar comigo."
"Uai, como assim?"
"É uma longa história. Eu só me meto em triângulos amorosos."
"Tu gosta mesmo dessa mulher?"
"Demorei um pouco pra perceber, mas eu gosto demais."
"Então, se ela gosta d'ocê é só mostrar pra ela que ocêis tem que ficar junto, sobrinho."
"Queria que fosse simples assim."
"Mas é, Marquinho. Se ela te ama, vai ser burrice te largar, fio." Meu tio sorriu pra mim, enquanto apertava meu ombro. "A chuva já parou. Vamo volta pra lá."
Minha mãe conversava amistosamente com a mulher de meu tio, como se fossem amigas de longa data, sorrindo e compartilhando histórias de suas vidas. Meu irmão estava com todos os filhos de meu tio a sua volta, exibindo seu PSP e eles.
Achei melhor partirmos, já que estava escurecendo. Nos despedimos de todos, meu irmão os convidou para irem a nossa casa qualquer dia, meu tio me emprestou uma de suas camisetas para não ter que vestir aquela suja novamente. Confesso que esse passeio até me fez bem. Eu não estava mais angustiado quanto a Rita. Eu só queria que ela fosse feliz, mas é claro que eu queria deixar bem claro que poderia fazê-la tão feliz quanto ela merecia ser, e se Ivan pudesse fazer o mesmo, eu só poderia desejar que eles fossem felizes.
Caio cochilou no banco de trás. Então minha mãe me fitou e perguntou:
"Escuta, você não vai me contar quem é ela?"
"Como assim?"
"A moça que te faz rir em um dia e em outro te faz ficar mau humorado."
Ambos rimos, enquanto ela passava a mão em meus cabelos.
"Ah, mãe, não tenho sorte com mulheres. Elas não me querem!"
"Filho, não diga isso. Você vai encontrar uma moça que goste de você."
"E o que acontece se eu encontrar uma que goste, mas não quer ficar comigo?"
"Marco, se ela gosta, então ela quer ficar com você. Ela só precisa se decidir."
"Infelizmente tem outro cara na jogada."
"Se ela realmente gostar, vocês vão ficar juntos. Se não, é porque ela nunca gostou realmente de você."
"É, tem razão."
Minha mãe se inclinou e beijou meu ombro.
"Você vai ser feliz, meu filho."
Eu sorri para ela e fomos em silêncio até em casa.
Paz, eu estava definitivamente em paz. Só tinha uma coisa que eu tinha que fazer.
Apesar de ser tarde e estar extremamente cansado, deixei meu irmão e minha mãe em casa, fui até o jardim da Dona Beatriz e peguei uma outra tulipa vermelha.
Fui até a casa de Rita, escrevi um bilhetinho em um pedaço de papel que encontrei na minha mochila.

"De toda felicidade que eu poderia desejar a nós, eu a desejo a você. Levo sempre no coração! Com amor, Marco."

Toquei o interfone, o porteiro atendeu:
"Pois não?"
"É o Marco, amigo de Rita."
"Rapaz, você tem uma mania de visitar tarde as pessoas."
"Eu só queria deixar uma coisa aqui na portaria pra ela."
Ele desceu até o portão para pegar o bilhete e a flor. Voltei para casa, sem deixar a ansiedade sucumbir a minha sensação de tranquilidade.

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"Ei, você está com os pés gelados."
"Esquenta eles pra mim?"
Apesar de não abrir os olhos para ver, eu sabia que Rita estava sorrindo.
"A gente precisa levantar."
"Não a gente não precisa." Eu sussurrei em seu ouvido, beijando sua orelha e a puxando pra mais perto.
"Você sabe que não dá pra ficar aqui o dia inteiro."
"A gente pode tentar. Tá frio lá fora." Eu disse a abraçando pelas costas, beijando sua nuca e sentindo seu cheiro.
Rita se virou, deslizou as mãos pelos meus cabelos e me beijou. Ah, e a sensação que os lábios macios dela me provocavam é tão difícil de descrever.
Então ela se esquivou de mim, e eu tentava a puxar de volta, enquanto a ouvia sorrir. Ela abriu as cortinas, permitindo que a luz do sol invadisse o quarto. Então eu me dei por vencido e resolvi abrir os olhos. Comecei a ver a silhueta de Rita, até enxergá-la nitidamente, com aquele gracioso cabelo despenteado, vestindo minha camisa e me puxando frenética e estranhamente pelo braço.

"Acorda, Marco! Acorda!"
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"Marco, já é quase meio dia! Você disse que ia levar mamãe até o mercado hoje."
Eu acordei com Caio me sacudindo.
"Leva você! Pega o carro... Me deixa dormir outra vez."
"Eu vou sair, cara."
"Se você levar eu te empresto o carro."
"Onde estão as chaves?"
Eu apontei pra escrivaninha.
"Valeu, irmãozão!"
Virei para o outro lado, na patética tentativa de voltar ao sonho. Lamentavelmente, só um sonho.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Rita e Marco. (Parte 11)



"Dona Carmem, eu acho que não deveria estar aqui. Sinceramente, não estou entendendo nada... Quem é aquele rapaz?"
"O ex-noivo de Rita." - Ela sussurrou.
O meu coração disparou tamanha a frustração. Por que ela nunca disse nada? Tudo bem, nos conhecemos há pouco tempo, mas será que aquele beijo significou alguma coisa?
Rita fechou as cortinas do quarto e saiu para fora.
"Vovó, a senhora me deve boas explicações."
"Minha filha, você deve explicações a este moço aqui. Não queria me intrometer, mas você precisa pensar melhor nas suas atitudes."
"Marco, eu não sei por onde começar."
"Não precisa dizer nada. Acho que eu não tenho nada pra fazer aqui. Melhoras para o seu... seu... o que quer que ele seja pra você." Só então percebi como as palavras soaram agressivas de minha boca. Não dava pra esconder minha chateação. Jamais importaria o quão bem vestido eu estivesse, ou o quão bonito eu pudesse parecer, nada disso importa quando se trata de amor. Talvez eu desejasse só as mulheres erradas e estivesse descartando alguém ao meu redor que realmente gostasse de mim, mas eu vislumbrei que eu e Rita talvez pudéssemos dar certo.
Eu me virei para ir embora. Fui caminhando pelo corredor enquanto ouvia os passos de apressados atrás de mim.
"Marco, por favor, espera!"
Eu pensei em não parar e ignorar, mas o que aconteceu demais entre nós? Foi só um beijo. Um beijo que partiu da iniciativa dela, claro. Só que fora isso, não tínhamos nenhum compromisso, não tínhamos nada além da amizade.
Então eu parei, disfarçando a real tristeza que eu sentia em olhar pra ela e lembrar das sensações que ela me provocava.
"Ei, vamos conversar, por favor."
"Pode falar, Rita."
"Podemos ir para outro lugar?"
"Você vai deixar seu... enfim, você vai deixá-lo sozinho?"
"Minha vó vai ficar por lá, caso ele acorde. A propósito, seu nome é Ivan."
"Hum... Então, aonde você quer ir?"
"Vamos a lanchonete do hospital."
Entramos no elevador e pode acreditar, o silêncio era constrangedor. Eu não sabia o que dizer, também não tinha muita certeza se gostaria de dizer algo. No fundo eu queria trazer Rita pra perto de mim, beijá-la, abraçá-la ali por quanto tempo eu pudesse, mas eu comecei reprimir todos os meus desejos. Decepção, talvez fosse isso, mas eu precisava ouvir o que ela tinha a dizer. Talvez não fosse nada do que eu pensava. Talvez ainda houvesse esperança.
Nos sentamos em uma mesa, no canto da lanchonete. Rita se apoiou sobre a mesa, com as mãos cruzadas, enquanto balançava os pés, demostrando sua inquietação.
Eu simplesmente me sentei, jogando todo peso de meu corpo sobre o encosto da cadeira, com as mãos sobre as pernas, olhando pra ela, talvez um tanto melancólico, mas tentando parecer calmo, totalmente corroído por dentro no momento.
Ana abaixou a cabeça, passou as mãos em seu cabelos, olhou para mim e disse:
"Eu não sei por onde começar."
"Pelo começo, talvez, mas é só minha opinião." Forcei um sorriso de canto para combinar com meu sarcasmo. Então decidi me calar, afinal eu não estava melhorando a situação.
"Há um ano eu tive uma briga feia com Ivan. Uma amiga minha, amiga não, amiga não faz o que ela fez... Enfim, ela me disse que estava saindo com o Ivan. Que ele era um cafajeste, mentiroso. Eu sempre soube que ela tinha uma queda por ele, mas quando ela me disse, achei que fosse inveja por conta dos comentários sobre a minha aliança, até que ela me mostrou uma foto dos dois juntos. Então depois de uma discussão feia, rompemos. Confesso que ele não era dos melhores, tinha seus defeitos, mas eu o amava, entende?"
"É, acho que entendo." Inclinei a cabeça e espremi os lábios, enquanto o olhar de Rita vagava longe, como se ela estivesse vislumbrando o ocorrido, ou talvez só estivesse sem graça de me encarar.
"Alguns dias depois do rompimento, ele sofreu um acidente por dirigir alcoolizado. O irmão dele faleceu. Ele entrou em coma. A mãe dele disse que isso era minha culpa, não queria nem que eu viesse ao hospital para vê-lo. Disse pra sumir da vida dele. Enfim, eu fiz amizade com uma enfermeira do hospital. Sempre ligava para saber como ele estava, mas os médicos não sabiam nem se um dia ele iria acordar do coma. Os traumas foram muito graves, foi sorte ele ter sobrevivido. Foi exatamente isso que o médico disse. Eu ligava todos os dias, até que comecei ligar menos e menos, até parar de ligar. Todos diziam que eu tinha de começar a viver e deixar o passado pra trás. De alguma forma eu não achava justo saber da sua situação e tocar minha vida como se nada houvesse acontecido. Eu vivi triste por tanto tempo, até te conhecer e sentir uma estranha alegria de novo... Estranha porque eu já não estava mais acostumada a bons sentimentos."
"E então?" Questionei, mais compreensivo, agora eu podia enxergar a situação de Rita.
"Então, eu achei que alguma coisa estivesse acontecendo entre a gente, até encontrarmos aquela sua amiga, Ana, no shopping e perceber que você era apaixonado por ela e não por mim e voltar a minha realidade."
"Rita, hoje eu acordei pensando em você. Eu acordei pra te ver, acordei porque eu queria que nós continuássemos de onde paramos, daquele beijo. Você mudou tudo, por isso eu acordei disposto a tentar."
Eu me inclinei e segurei a mão de Rita, sem me preocupar em ocultar meus impulsos, agora eu sabia que ela realmente sentia o mesmo. Então eu vi seus olhos se encherem de lágrimas. Ela recolheu rispidamente sua mão e se levantou. As lágrimas começaram deslizar pelo delicado rosto de Rita.
"Agora é tarde, Marco. Ivan precisa de mim... Ele... Ele despertou do coma e a primeira pessoa por quem chamou fui eu. Eu vim vê-lo e nós estamos juntos novamente. Eu prometi que ficaria com ele."
Um balde de água fria. Aquelas palavras soaram tão contra o vento, doeram tanto, mas diferente de Ana, eu sabia que Rita me correspondia.
"Desculpe, mas depois de tudo o que ele te fez? Tudo bem que ele sofreu um acidente terrível, que precisa de apoio, de cuidados, de afeto, mas Rita, você sabe que eu jamais faria o que ele te fez."
"Marco, eu não posso desfazer o que já está feito."
"E eu já não consigo pensar em te deixar."
Rita, saiu da lanchonete e foi para o corredor enxugando as lágrimas.
"Marco, você precisa ir embora."
"Não. Eu não vou!"
"Ele não pode te ver aqui."
"Eu não me importo."
Rita parou e me encarou de frente.
"Por favor, eu só preciso que você saia daqui."
"Eu não acho que é realmente isso que você quer."
"Você não sabe o que eu quero."
"Mais do que isso, Rita, eu sinto!"
Pressionei os meus lábios contra os de Rita, enquanto a envolvia em meu abraço, e inutilmente com os punhos fechados em meu peito ela tentava me afastar. Até que ela sucumbiu, e eu podia sentir suas mãos em meus cabelos me puxando pra mais perto, e eu a envolvia mais firme, aproximando nossos corpos o máximo que eu podia. Eu sabia que ela também queria isso. Sentia o gosto salgado das lágrimas que escorriam de seus olhos. Eu sentia a respiração irregular de Rita, sentia o coração dela palpitar tão acelerado quanto meu.
Até que ela afastou seus lábios dos meus, colou a testa contra minha, enquanto eu tentava alcançar novamente seus lábios e ela tentava se esquivar, mas parecia não ter forças pra se desvencilhar do meu abraço.
"Marco..."
Eu parei, sem soltá-la, sem querer fazer isso sabendo que era exatamente o que ela iria pedir.
"Vá embora, por favor."
E a tristeza tomou conta de novo do meu semblante. Por que tudo tinha de ser tão complicado? Então eu me afastei.
"Eu ainda não desisti de você, Rita."
Ela virou o rosto pra não me olhar novamente.
Então eu parti.
Não, eu não ia deixar tudo escapar assim tão fácil. Rita deveria ser mais convincente se realmente não me quisesse mais.

Acordei muito cedo no sábado. Minha mãe vendo que eu estava disperso e não tão alegre quanto no dia anterior, sugeriu que fôssemos ao sítio de um tio meu. A princípio não queria sair de casa, mas pensei que talvez um pouco de ar fresco me faria bem.
Acordei Caio, que estava relutante em sair da cama, até eu dizer que iríamos ao sítio. Então ele se aprontou em exatos 10 minutos.
Eu fui em silêncio, dirigindo por todo caminho, enquanto minha mãe afagava minha nuca, e Caio estava entretido com seu PSP.

Neste sábado o tempo estava seco demais. O calor queimava meu braço através da janela. Mesmo com os vidros fechados e ar condicionado ligado, estava quente demais.
Chegamos ao sítio. Tio Murilo já estava lá nos esperando, com aquele chapéu de peão e um irradiante sorriso em meio a barba branca, que desde menino eu nunca o vi sem.

"Marquinho! Como'cê tá grande, rapaz! É um homi feito já... E ocê, Caio! Como tá crescido também... Mas que saudades do'ceis... E ocê, Maria, minha irmã!" Ele disse abraçando minha mãe, depois de despentear Caio. "Como tá a vida?"

"Vai bem, irmão! Tirei esses meninos daquela casa pra respirar um pouco de ar fresco."
"Fez bem, Maria! Fez bem. Vamo entrando, gente!"

Fomos entrando naquela casa enorme, cheia de crianças, pelo menos uns sete filhos ele tinha, e sua segunda mulher era pelo menos uns 10 anos mais nova. A primeira era estéril e vivia com problemas de saúde, por isso faleceu cedo.

Lembro de quando meus pais me traziam aqui quando criança. Eu costumava ficar jogando pedras no lago para fazê-las pular. Eu era bom nisso.

Depois de jogar bola com as crianças e meu irmão, sujei toda camiseta de terra e pra variar eu não havia trazido outra. Entretanto, até que consegui me distrair bastante durante o dia.
Devo admitir que a mulher de meu tio era uma excelente cozinheira. Em poucas horas ela havia preparado um banquete naquele fogão de lenha. Eles tinham sim um fogão convencional, o sítio não era assim tão rural, mas meu tio queria que soubéssemos a benção que é morar junto a natureza.

Depois do almoço fui até o lago com meu irmão e ficamos jogando pedras. Mas, logo ele se fartou de ficar ali comigo e foi se deitar em uma das redes da varanda junto a nossa mãe. Caio já tinha 19 anos e cursava cinema. Minha mãe pegava um pouco no pé dele, achava que ele devia fazer medicina, direito ou engenharia. Uma dessas coisas que todo o pai gostaria que seu filho fosse.

Fiquei sentado na beira do lago e reparando a beleza daquele lugar. Lembrando do meu falecido pai, que costumava pescar ali comigo enquanto contava uma série de histórias de assombrações, de reis, de guerras e princesas. Típicas estórias de pescador. Eu gostaria que Rita estivesse ali comigo, mas ela tinha decidido por um cara que havia partido seu coração há um ano atrás. Dá pra entender as mulheres? Tudo bem que ele estava mal, acabou de voltar de um coma, todo arrependido, mas Rita precisa saber que eu não vou desistir até que eu a veja no altar com outro cara. O Sol era muito forte, então tirei aquela camiseta suja de terra, e me deitei na grama e a coloquei sob a cabeça, fechei os olhos e fiquei ali.
Fiz um breve balanço da minha vida e fiquei feliz em saber que tinha me libertado dos sentimentos por Ana, e que agora tinha boas lembranças de uma amiga.
Foi então que um vento gelado soprou e o céu escureceu. Senti uma gota cair sobre meu peito. Então me levantei sem pressa. E a chuva começou a cair. Eu simplesmente não me importei, só a deixei me molhar.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ana e Marco. (Parte 10)



Marco saiu da casa de Rita como alguém que se levanta pra viver uma nova vida. Era como se toda bagagem fosse deixada pra trás. Afinal, um dia a gente precisa se livrar de todo aquele peso que dificulta nosso andar. Talvez a sensação de voar seja parecida com a que ele sentiu enquanto voltava pra casa, naquela noite fria.

O sol nasce outra vez. Mesmo dormindo pouco, Marco se levanta no horário e disposto. Já solta logo um bom dia todo animado a sua mãe e seu irmão mais novo, como há tempos ele não fazia.
"Nossa, que animação é essa?"
"Ah, mãe, eu sempre fui alegre!"
"Garoto, eu te conheço. Alguma coisa muito boa aconteceu!" Sua mãe sorria, enquanto preparava a mesa do café.
"O Marco deve estar apaixonado, mãe!" Disse Caio, seu irmão mais novo, levando uma almofadada, o que provocou uma guerra de almofadas.
"Os dois parem com isso! Parecem duas crianças. Onde já se viu, dois rapazes nessa bagunça. Ara!"
Os dois irmão se olharam e começarem a gargalhar juntos.
"Eu vou nessa!"
"Não vai tomar café, meu filho?"
"Não mãe, preciso chegar mais cedo... Como algo no trabalho." Disse Marco beijando a testa de sua mãe e aproveitando pra jogar uma outra almofada em Caio, que estava desprevenido enchendo a boca com um pedaço de bolo.
"Ei!"
"Tchau, maninho!"
Marco correu até a garagem, entrou em seu carro. Aproveitou pra encontrar uma música alegre enquanto o portão se abria, mas no momento em que saiu com o carro da garagem, avistou Dona Beatriz cuidando do jardim. Então parou para dar bom dia a ela.
"Bom dia, Dona Beatriz!"
"Bom dia, Marquinho!"
"Ei, a senhora me daria uma flor?"
"Claro, querido! Que flor você quer?"
"Uma tulipa."
"Vou te dar uma tulipa vermelha." Dona Beatriz veio até a janela de meu carro com a tulipa na mão e coxixou: "Ela pode significar uma declaração de amor."
"Obrigado, Dona Beatriz. Um bom dia pra senhora!"
"Bom dia, Marco."
Marco acelerou. Não via a hora de chegar e encontrar Rita. De ver o brilho do sol se misturando aos seus cabelos dourados, os seus olhos castanhos claro tão expressivos, suas graciosas maças do rosto e seu sorriso perfeito.
Chegando ao trabalho, ele deixou a tulipa junto a um bilhete em cima da mesa de rita que dizia:

'Posso desfrutar da sua companhia nesta noite de sexta?
Prometo ser a primeira das melhores noites a se viver!
Marco.'

Marco irradiava sua alegria contagiante a toda equipe. Reuniu o pessoal de criação e tudo fluía tão bem. Nunca houve tanta sintonia em um dia que tinha tudo pra ser o mais massante. Prazos vencendo, clientes querendo receber propostas de campanhas e parecia que até o final do dia eles conseguiriam cumprir todas as metas. Até Marco notar que Rita ainda não tinha aparecido em sua sala nem para dizer oi.
Então ele começou ficar inquieto. Nenhuma resposta. Nenhum cumprimento. Nenhum sinal de Rita.
Ele pediu licença a equipe e foi procurá-la.
A mesa de Rita estava exatamente como ele a encontrou pela manhã ao deixar a tulipa e o bilhete.
Então perguntou a Carlos, o diretor de quem Rita era assistente:
"Ei, Carlos! E a Rita? Você a viu?"
"Marco, a Rita teve alguns problemas pessoais e não pode vir hoje."
A preocupação com Rita o deixou tenso, e o dia tão lindo já não era mais tão colorido.
"Ah, obrigado, Carlos."
"Ei, e a campanha? Conseguiram desenvolver algo? Cara, aqui as coisas estão difíceis! Tenho mais um cliente interessante pra você."
"Hoje foi produtivo, Carlos. Bem produtivo!"
"Quando acabar com esse cliente, passe aqui pra conversamos."
"Pode deixar!"
A verdade é que Carlos não era bom e gostava de jogar os clientes pra cima de Marco, mas ele não iria aparecer para conversar sobre isso e de verdade, só queria saber sobre Rita.
Sem pestanejar, pegou o celular e ligou para Rita.
Ligou quantas vezes achou necessário, mas não queria parecer chato e obcecado. Enviou uma mensagem de texto. Não recebeu nada de volta. Sem notícias.
"Ei, Marco! O pessoal vai sair pra beber alguma coisa. Você vem?"
"Não sei, Henrique!"
"É sexta, chefe! Cadê aquele ânimo? Vamo lá, cara!"
Marco olhou para o celular, com um olhar de inquietação, pressionando os lábios, esperando uma resposta. Pegou o casaco, fechou o notebook e foi com Henrique.
Ele estava totalmente desligado dos assuntos. Não conseguia se concentrar em nada. Até que sentiu o celular vibrar. Era uma mensagem de Rita.

'Ei, preciso conversar com você. Não me ligue por enquanto. Depois eu explico. Beijos!'
O coração de Marco acelerou. Por que é que parecia que toda vez que a felicidade estava em suas mãos, ela acabava escorrendo por entre seus dedos como se fosse água?

'Depois? Desculpe. Preciso realmente saber o que aconteceu.'

Então Rita respondeu:

'Marco, eu já disse que vou explicar. Quando voltar pra casa eu te ligo. Espere eu ligar!"

Marco já estava começando a se desiludir. O que Rita teria de tão sério para esconder dele. Por que seus sentimentos só lhe confundiam e causavam mais frustrações?
Foi neste momento que ele começou se convencer de que talvez ele devesse viver sozinho.

Ele se levantou, tão aborrecido com a situação, mas na esperança de que tudo não passasse de um engano. Que estava tudo bem e havia uma explicação totalmente razoável para isso.

Voltando pra casa, passou em frente ao prédio em que Rita morava. Parou em frente e pensou que não custava tentar. Tocou o interfone e o porteiro atendeu.
"Pois não?"
"Oi, eu sou o amigo de Rita, Marco."
"Ah, Marco, você já veio trazê-la algumas vezes. Só um momento, rapaz."
Ele ficou aguardando, até que uma senhora de idade apareceu.

"Boa noite."
"Boa noite, senhora."
"Eu sou a avó de Rita."
"Dona Carmem, é isso, certo?"
"Isso mesmo. Você deve ser o Marco."
"Sim, sou eu." Uma ponta de esperança começou a surgir quando descobriu que ela já havia falado sobre ele com sua avó. Rita morava com a avó. Ela e o irmão mais velho, hoje já casado, quando crianças ficaram órfãos. Eles haviam perdido os pais em um terrível acidente, então acabaram sendo criados pelos avós.
"Acredito que era por causa de você que Rita andava tão sorridente, mas agora as coisas se complicaram, jovem."
"Dona Carmem, eu sei que nem deveria estar aqui, mas é que eu realmente queria muito vê-la hoje."
"Acredito que ela também gostaria de te ver, mas agora ela vai dizer que não."
"Eu fiz algo errado?"
"Você não fez nada errado. Ela que esta se culpando."
"Se culpando pelo que?" Marco franziu a testa, totalmente confuso e curioso.
"Aquele carro é seu?" Disse Dona Carmem apontando para o carro preto parado em frente a portaria.
"Sim, é meu sim."
"Então vamos."
"Vamos pra onde?" Comecei a ficar assustado com a vó de Rita.
"Para o Hospital." Ela disse enquanto Marco abria a porta pra que ela entrasse. "Só estou fazendo isso porque quero que minha netinha seja feliz e você me parece um bom rapaz. Ela não pode ficar vivendo com uma velha como eu pra sempre."
Chegando ao hospital e vendo Rita ao lado do leito de um rapaz forte, moreno, cabelos pretos lisos, que dormia, com um curativo envolvendo sua cabeça, Marco não soube bem o que pensar. Quem era aquele rapaz? E por que Rita ficou tão espantada ao ver Marco ali com sua vó.
Ele só esperava que o que quer que ele escutasse não o fizesse lamentar por ter ido atrás dela.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ana e Marco. (Parte 9)



Nós tínhamos muita história juntos. É engraçado olhar todas as nossas fotos juntos no mural de Ana, trazer todas as memórias sem sentir saudades dos tempos em que o gostar era simples, mesmo que não fosse correspondido. Só importava estar por perto.
"Jamais iria dar certo, não é mesmo? Eu e você?"
Conversávamos deitados sobre o tapete bucana branco macio do quarto de Ana, enquanto nossas mãos estavam entrelaçadas, depois de contermos algumas lágrimas até não conseguirmos mais.
"Talvez nós tenhamos nascido somente pra ser bons amigos."
"Sabe, eu fui apaixonado por você todo esse tempo e nunca tive coragem de dizer. Depois que nos vimos no shopping, eu tinha que falar com você de alguma maneira. Fiquei tão desesperado, mas a Rita me fez perceber algo que eu não tinha notado."
"Marco, só agora eu percebo como eu fui superficial. Queria estar com caras maravilhosos e ter você por perto pra suprir uma carência mais profunda de companheirismo, de amizade, de cuidado, proteção, afeto e me envolver com caras vazios, só por beleza... Bem, mas agora ela te fez perceber que você é um gato. Dizem que uma mulher transforma um homem." Ana riu e me fez rir também. "Só quero ressaltar que descobri o que sinto por você depois daquele abraço, antes de te ver assim."
"Então você gostou? Disseram que eu iria fazer sucesso com as mulheres mesmo."
Ana deu uma gargalhada e se encolheu junto a mim, repousando a cabeça sobre o meu ombro.
"É bom estar com você, tão bom que eu quase havia me esquecido da sensação. Só que eu tenho que aceitar que você tem que partir."
"Não vou partir. Só que agora eu tenho um novo amor. Nós ainda iremos cantar "lança perfume" em voz alta em dias de fossa." Comecei cantar em falsete: "Oh, lançaaa... lança perfume."
Ana continuava a gargalhar, quando a vi enxugar as lágrimas. Era como um rompimento de algo que nem se quer havia começado, mas sabíamos que precisamos continuar só caminhando como amigos. Eu sempre iria amá-la, mas percebi que deveria amá-la de outra forma.
Eu envolvi Ana em meus braços, a trazendo pra mais perto, olhei em seu rosto e a ajudei enxugar as lágrimas, enquanto a senti afagando meu rosto para enxugar as minhas.
"Então, nunca vai haver Ana e Marco?"
"Ana, você teve todas as chances. Meu coração sempre foi seu, mas eu tive que pegá-lo de volta pra curá-lo, e sem perceber encontrei alguém que você sabe que tem feito bem a ele." Ana se levantou e sentou com as pernas cruzadas. Deixou seus cabelos caírem cobrindo rosto enquanto abaixava a cabeça pra que eu não visse como ela chorava. Eu me levantei e sentei encostado a sua cama. A puxei de volta pra mim, e a abracei. Dei-lhe um beijo na testa. "Nós vamos ser felizes. Você vai ser feliz. Só que você deixou pra se decidir sobre mim quando já não posso ser mais seu. Agora você tem que esperar por outro alguém."
"Eu sei... Mas, e agora? Eu não sei como lidar com isso. Você era meu melhor amigo e... eu te fiz tanto mal."
"Ei, sei que não foi de propósito. Você não tem obrigação de gostar de alguém porque esse alguém se apaixonou por você. Olha só pra você! Só idiotas não conseguem se apaixonar por alguém assim." Sim, eu me referia a Pedro, aquele ex que acabou com ela por alguns meses. "E você, sabe, não deixo de te amar por isso. Só vou amar como eu sempre deveria ter amado."
"Eu perdi você." Seu olhar melancólico, formando novas lágrimas, fizeram meu coração se apertar enquanto eu resistia aos meus instintos, por conta de toda intensidade do momento. Não podia sucumbir a emoção daquele quarto. Eu tinha que ser racional, ao menos uma vez, ao menos dessa vez.
"Eu nunca fui seu. Nem você minha. Tudo que temos agora é o que sempre tivemos e sempre teremos. Nossa amizade, nosso senso de humor, nossas histórias, nossas memórias e nossos momentos."
"Eu me sinto tão burra por ter desperdiçado o que nós poderíamos ter construído. Enfim... Que Rita te faça muito feliz, se não..."
"Se não?"
"Sempre poderemos cantar "lança perfume" em dias tristes." Eu sorri novamente em meio algumas novas lágrimas que se formavam e eu resistia a elas.
"Eu amo você."
"Eu amo e sempre acabo amando você, Marco."
"Eu sei! Esse corte de cabelo provoca esse efeito."
Rimos juntos e Ana deu um leve tapa em meu ombro, logo em seguida se debruçando novamente sobre ele, e se encaixando em meus braços. Enquanto eu guardava as últimas lembranças desse momento. Seus longos e lisos cabelos castanhos, ondulados nas pontas, caindo sobre seu ombro, e eu os colocava atrás de sua orelha para enxergá-la. A pela dourada, os olhos cor de mel e seus longos cílios. Seus lábios torneados e bem desenhados. Até o nariz de Ana era gracioso, hormonizando perfeitamente a simetria de seu rosto. Mas devo admitir que mesmo ali eu estava ansioso para correr até Rita. Infelizmente já era tarde. Desde a hora em que liguei para Ana, resolvi ter esta conversa, eu só queria vê-la novamente, agora com todos os meus dilemas amorosos resolvidos. Eu precisa dormir para trabalhar no dia seguinte também.
"Acho que eu preciso ir."
"Só mais um pouco!"
Beijei a bochecha de Ana, a abracei por alguns segundos. Nos olhamos fixamente por alguns instantes.
"Me deseje sorte, ok?"
"Sorte?"
"É, com Rita."
"Não preciso desejar sorte. Ela te beijou deliberadamente, Marco. Nem deixou chances pra mim."
"Um detalhe que fez toda a diferença."
"Vocês já tem a sorte de terem um ao outro."
"Nós também temos. Quantos amigos como nós a gente conhece?"
"Somos únicos." Ana deu um sorriso que iluminou seu rosto.
"A gente se vê em breve."
"Claro. Você precisa me manter informada das novidades do seu novo romance."
"Deixa comigo."